segunda-feira, 6 de março de 2017

Christian Dunker analisa os movimentos políticos pós-impeachment

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Do Psicanalistas para a Democracia
1. Alguns pensadores falam de um aumento significativo na mobilização da esquerda como resultado do impeachment. Outros falam de um “ressurgimento” da esquerda. Vc concorda?
Penso que há um aumento da participação política em geral, especialmente de novas gerações, por outro lado o esgotamento das formas e práticas constituídas que se disseminaram durante o período FHC e Lula fazem pensar que muitos pequenos grupos libertários e contra-institucionais estavam sub-representados no chamado discurso de esquerda. Organizações feministas, coletivos artísticos e agrupamentos em torno de pequenas causas locais, como, por exemplo, a luta pela circulação mais acessível em ônibus, trens e mobilidade urbana em geral, sentia-se pouco representada pelos projetos políticos governistas. Pautas “morais” como o aborto e o consumo de drogas leves ficaram fora da agenda da esquerda governista.
2.     Que forma vai tomar esse “ressurgimento”? O PT pode se refundar como força da esquerda? Ou o PT está moribundo como força da esquerda? E o Lula? Que papel ele pode jogar no futuro? O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, pode vir a se tornar um nome nacional?
O PT deve diminuir de tamanho e tornar-se cada vez mais um partido de centro-esquerda, suas tendências mais radicais tornaram-se nos últimos tempos meros “simpatizantes” ou evadiram-se do terreno, sem se articularem na forma-partido que é, no Brasil, uma forma que envelheceu antes de se consolidar. Lula permanecerá como uma força muito expressiva, hoje, no pior cenário possível ele tem quase 40% das intenções de votos. Fernando Haddad é o melhor que sobrou do PT, deve se fortalecer no futuro próximo como uma esquerda mais eficiente e mais argumentativa.
3.     E o PSOL? E o MST e o MTST? Qual vai ser o papel deles? Vai ser preciso a emergência de novos partidos/movimentos para a esquerda se recompor?
Deve acontecer a formação de um movimento nos moldes do Podemos espanhol ou do Syriza grego. A indignação vai mudar de lado rapidamente. Um golpe movido pela incitação do ódio, com a consternante participação de formadores de opinião, laicos e religiosos, cria o precedente para a eficácia política deste afeto. O PSOL teve sua chance de capitanear a reforma da esquerda, mas atrapalhou-se em sua paixão pela própria identidade. Sem uma articulação dos grupos de esquerda os movimentos sociais tendem a se autonomizar, perdendo um tanto de sua força. Por outro lado, movimento históricos como o MST e o MTST, ganham força com pautas bem definidas e estratégias de ação que sobrevivem às políticas de aliança. Inversamente, o sindicalismo sofrerá baixas tremendas com o consenso do Estado-Corrupção.
4.     A direita também se reorganizou. Além da recomposição de forças ao redor do PMDB e da aglutinação do PSDB, figuras como Jair Bolsonaro despontam, bem como movimentos — MBL, Vem Pra Rua etc. Esses atores serão protagonistas em 2018 — ou mesmo já em 2016?
Poucos aguentam uma vida revolucionária, e ainda menos quando o movimento depende de uma reação. MBL e Vem para a Rua, agora se transformarão em PMDBL (MBL+PMDB) e o Vem para o Planalto. No governo e tendo que pagar a conta do golpe tudo indica que serão refundados em outras bases. Quanto a Bolsonaro a elevação do tom de sua voz, homenageando torturadores em seu voto pelo impeachment, denuncia que a pauta do ressentimento precisará de uma atualização urgente. Ele e seus assemelhados precisarão de novos antagonistas.
5.     Muitos movimentos de ativismos civis — sindicais, MTST, LGBT, indígenas, feministas, negros e outras minorias — aderiram ao lema ‘Não vai ter golpe’. Eles ficarão órfãos, em um eventual impeachment de Dilma? Atrairão para si a postura de vítimas para ganhar a simpatia da população? Combaterão o novo governo?
O “Não vai ter golpe” perdeu, mas foi eficaz. Consolidou a mensagem de que a queda de Dilma se deu por meio de uma irregularidade. Há uma expressão que caracteriza o modo brasileiro de lidar com a lei, chamado de “jeitinho brasileiro”, que exprime certa manipulação ou acomodação das leis ao seu contexto local de interesses conforme uma determinada concentração de forças ou de carência de forças. O golpe foi um “jeitinho brasileiro” ao contrário. Ocorre que todos sabem que o “jeitinho brasileiro” é a fonte e origem da corrupção, da pequena corrupção que atravessa as relações entre público e privado em meio a um caos legal que permite a escolha da aplicação da lei por quem está na posse do martelo. O papel da imprensa internacional está sendo crucial neste ponto do processo. Porque o “jeitinho brasileiro” depende muito de outra expressão popular, que é o “para inglês ver”. Ou seja, pequenos corruptos por dentro, mas mantendo as aparências para o estrangeiro. Nossa vergonha, nosso sentimento de pequenez, assim como nossa admiração diante do estrangeiro, faz como que ele seja visto como o lugar ideal onde as “leis funcionam”. Ocorre que a imprensa internacional está confirmando o golpe, ou ao menos do golpe branco. Ou seja, ou o golpe se “purifica”, levando embora Temer, eleito pela mesma chapa suspeita de corrupção e Eduardo Cunha, que presidiu a sessão na câmara, mesmo tendo contra si seis processos judiciais e um comitê de ética, ou teremos um número extenso de pessoas que se tornarão “enganados publicamente”.
6.     Na sua opinião, o impeachment de Dilma Rousseff é golpe?
Tragédias sociais também se renovam. A tirania grega não é a mesma de Kim Jong-woon, ou que o fracassado “putsch” de Hitler em 1923. Os golpes ostensivos rodeados de conspirações e interesses internacionais deram lugar ao tipo de golpe que se deve esperar em tempos de neoliberalismo: livre empreendimento de um grupo interessado no poder, manipulação das leis por exageração ou flexibilização contextual, punição seletiva consoante a resultados, criação retrospectiva de razões “práticas” autojustificadoras, cinismo ostensivo das motivações e propósitos. Tudo isso permite falar em um golpe à altura de sua época.
7.     O PT tentou mudar o Brasil operando dentro do sistema, aceitando as regras do jogo? Parece que essa estratégia não deu certo. Qual deve ser a nova estratégia da esquerda?
A cobra morde seu próprio rabo. O PT se elegeu com uma forte confiança ética, não apenas com sua base operário, camponês, universitária. Percebendo que as mudanças estruturais seriam impossíveis em um contexto do flácido apoio moral, ele rapidamente se transformou em um partido que governou pela norma, como a antiga função do partido moderador exercido pelos monarcas. Sua estratégia de inclusão de pobres e miserável foi indiscutivelmente bem sucedida, ainda que os meios calcados no consumo possam ser criticados. Nem o mais feroz direito duvida deste movimento, aliás, pode vir a questioná-lo pelos piores motivos: aeroportos cheios, filhos estudando nas mesmas universidades que os filhos dos empregados domésticos, vulgaridade por toda parte. Mas quando o projeto de manter-se no poder sobrepujou o projeto de transformar o poder as alianças e concessões levaram o ciclo do PT ao pior.
8.     Quais são as reformas essenciais que a esquerda deve exigir? Reforma política? E que mais? E como vai conseguir essas reformas?
As lutas da esquerda se concentraram demasiadamente na luta por direitos. Em países com uma implantação liberal mais sólida das instituições isso seria suficiente, ocorre que por aqui as leis podem ser promulgadas, mas isso não significa que serão implantadas, conectadas com outras, reduzidas ou transformadas em séries a serviço de política públicas. A política foi engolida pela economia. É o que chamo de lógica de condomínio fechado. Esta pauta deve ser revertida. Diante de qualquer desastre, dificuldade ou problema cria-se o espetáculo das leis feitas para a ocasião. E no seu topo o síndico sem compromisso com qualquer orientação geral. Isso torna o pacto federativo impraticável. Note que as pedaladas são um caso entre milhares de outros nos quais as leis, neste caso, benéficas e justas, sobre o controle fiscal da união, voltam-se contra os fins a que deveriam servir. Na mesma semana se julga se os estados podem aplicar uma “pedalada” contra a União, pagando suas dívidas em juros simples e não compostos, caso contrário vão falir. Nosso sistema tributário e fiscal é feito para não funcionar, criando correlativamente especialistas no “mau funcionamento”. Isso acontece nas empresas, nas instituições e na vida comum das pessoas. Por isso as chamadas reformas são políticas (fim dos partidos de ocasião, feitos porque a lei faculta horário na televisão, expansão da democracia digital em um país de dimensões continentais), reforma judiciária (fim das leis que tornam a justiça um bem simbólico para ricos), reforma agrária (fim do imbróglio legal formado pela luta de ecologistas, indigenistas, sem terra contra donos de terras improdutivas), reforma imobiliária (fim das leis que protegem a especulação com terrenos), reforma da política (que ridiculamente preserva estruturas dos tempos ditatoriais). Além disso, será preciso retomar as pautas comunitárias, dos pequenos modos de vida, dos movimentos ligados a novas formas de desejar e de sonhar, que se empobreceram muito em nossa imaginação política nos últimos anos Dilma. Duas palavras que historicamente estiveram longe da esquerda: desinstitucionalização e transparência deveriam ser parte de nosso futuro mais próximo.
9.     Se Temer se tornar presidente, vai poder parar a Lava Jato? Se não, o novo governo dura?
Ele vai tentar edulcorar a Lava Jato, mantendo o juiz Moro como um ícone moral, mas libertando os suspeitos para que o país volte a trabalhar e crescer. Já há duas semanas não se ouvem novas fases da operação, que anunciava feitos espetaculares a cada semana, em uma novela de grande audiência. Há muitas formas de praticar a corrupção dentro da lei. Até agora ninguém tocou no ponto nevrálgico que é como evitar que não aconteça de novo. Editais mais fortes para obras públicas? Eleições mais baratas? O novo governo terá uma vara de marmelo atrás de si, e sabe disso. Qualquer deslize e a ressaca moral contra seus apoiadores se tornará imediata. Serão vítimas do ideal angélico que usaram para chegar ao poder, só que desta vez com tolerância zero dos dois lados.

10.  Consequências para a América do Sul: Lula barrou a ALCA, mas com certeza os EUA vão tentar rapidamente retomar a ofensiva com um governo mais favorável a seus interesses. O que isso implica para a região?
O peso proporcional dos Estados Unidos, e do Trump Tower que vem se formando, será uma ofensiva difícil de enfrentar. A retórica da crise política se deslocará para a crise econômica e em nome dela o Brasil pode se tornar a nova Grécia da América Latina. É possível que isso seja atribuído ao passado de devastação legado pelo PT para justificar a nova devastação gerada pela neoliberalização institucionalizada. Quando se diz que o momento da esquerda latino americana passou, com a saída de Evo, Mujica e Chávez, sem falar em Fidel, é preciso notar que esta não foi uma esquerda formada depois de 1989, mas antes. Uma esquerda que se formou para enfrentar problemas econômicos, mas só pôde operar com problemas sociais. E ainda pagou a conta moral de uma política que não praticou. Acho que a expansão dos EUA pegarão um momento de deflação dos ideais que por aqui aportarão. Pode ser que não seja tão fácil assim, quanto parece, no final das contas.

domingo, 5 de março de 2017

Da Folha
 
 
Janio de Freitas
 
Nem tudo que Lava é Jato, nem tudo que é Jato lava. As novas perguntas de Eduardo Cunha, para sua defesa, chegarão a Michel Temer sem uma só censura do juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, de Brasília.
 
Tratamento oposto aos 21 cortes, em 41 indagações de Eduardo Cunha, com que Sergio Moro dispensou Temer de questionamentos problemáticos. Resultado imediato da diferença de condutas em situações idênticas, já se evidencia a necessidade de investigação de mais uma provável irregularidade com dinheiro do FI-FGTS. E mais um motivo para Cunha, o impiedoso, deixar Temer apreensivo.
 
A decisão do juiz adverte que Temer pode se negar a responder. Mas, nesse caso, o silêncio mais fortaleceria do que recusaria o teor da pergunta, cuja interrogação não diminui a sua força afirmativa. À época em uma das vice-presidências da Caixa, Moreira Franco também está agraciado por Cunha, assim como o representante dos trabalhadores no FI-FGTS, André Luiz de Souza. E o então vice-presidente Michel Temer, por acaso, estava com eles naquele encontro que tratou de financiamentos pretendidos? É o que indaga Eduardo Cunha. Não para saber a resposta, mas para que outros a deduzamos.
 
O conhecimento fornecido é, porém, incompleto, e Eduardo Cunha é insaciável. Temer, por sua vez, é velho adepto de reuniões pequenas e discretas. Esteve com Léo Pinheiro e Benedito Júnior, da OAS e da Odebrecht, para pedir dinheiro com alegados fins eleitorais? E se assim foi, por outro acaso, o presentinho pedido ficou vinculado a alguma liberação de financiamento do FI-FGTS? O ponto de interrogação às vezes é um desperdício.
 
Ações judiciais sobre Temer não podem ficar com juízes de primeira instância, como Souza Oliveira e Moro. Embora perguntas de defesa e suas respostas não sejam investigações, como pretendeu Sergio Moro, o questionário-revelação de Eduardo Cunha indica que a corrupção na Caixa e no FGTS terá, além da ação em primeira instância, mais um inquérito no Supremo. Quando? O provável é que também quando não ameaçar Michel Temer de deposição. Essa é uma nova regra não dita, mas vigente.
 
TRINCA
 
1) Cinco jornais e sites foram vetados em entrevista coletiva na Casa Branca. A Sociedade Interamericana de Imprensa não soube? E a Organização dos Estados Americanos, com sua comissão de liberdade de imprensa?
 
2) Em nove meses, caíram oito ministros de Temer. Sete por problemas com corrupção e um por denunciá-la. Tudo bem no Brasil moralizado. E se fosse com Lula ou Itamar?
 
3) Aloysio Nunes Ferreira na internet, em novembro: "Trump é o Partido Republicano de porre". Um achado. Esperemos que Aloysio Nunes Ferreira, no Itamaraty, seja o PSDB sem porre.
 
MAIS QUE UM LIVRO
 
Já pela originalidade e pela beleza, seria um livro destinado a ganhar o mundo e perdurar pelo tempo afora. Mas o destemor da franqueza, as ansiedades do convívio com uma mente inalcançável, a força e a fraqueza da ternura, as culpas não menos sufocantes por serem indevidas –isso faz da leitura de "Meu Menino Vadio" mais do que uma combinação rara e perfeita de prazer, emoção e descoberta. Luiz Fernando Vianna, ensaísta e jornalista entre os mais brilhantes, desmitifica a propaganda da felicidade de pais de autistas. Faria bem que esse livro fosse lido por todos, ao menos o seja por muitos. É a vida verdadeira que está nele. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Lula: um ano depois, PF não devolveu tablet do meu neto

O garoto de quatro anos é acusado de algo?
publicado 03/03/2017
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Zanin: bens apreendidos pertencem a familiares que sequer foram alvo da medida (Reprodução)
Conversa Afiada reproduz do site do Presidente Lula:
No dia 4 de março do ano passado, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão, assinado pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro, e levou do Instituto Lula, da residência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e das de outros colaboradores e diretores do instituto aparelhos de informática que contenham arquivos de dados, como computadores e telefones celulares.
Foram dezenas de aparelhos, tanto pertencentes ao Instituto do Lula como a seus colaboradores. Mas não só deles. Sérgio Moro também autorizou busca e apreensão na casa de todos os filhos de Lula e dona Marisa. Moro autorizou busca e apreensão de todos os aparelhos eletrônicos com arquivos nas casas de pessoas que não têm nada a ver com a investigação posta em prática pelos policiais, que não são investigadas em procedimento policial algum. 
Tanto que, entre os aparelhos apreendidos pelos policiais, estão inclusive os de noras do ex-presidente e de seus netos, menores de idade. Como o tablet de um deles, de quatro anos de idade. Não se tem conhecimento de que o garoto seja investigado por qualquer crime.
Um ano após a apreensão, nenhum dos aparelhos foi devolvido. Nenhum. Nem o tablet do garoto, que continha apenas arquivos de jogos e filmes infantis. A explicação oficial é que todos os aparelhos estão, até agora, "sob averiguação".
Os advogados responsáveis pela defesa de Lula e do presidente do Instituto, Paulo Okamotto, protocolaram ao juiz Sérgio Moro para que os aparelhos fossem finalmente devolvidos, considerando que já houve tempo hábil para averiguar os arquivos. A resposta do magistrado foi de que "esta questão deve ser tratada com a Polícia Federal". A autoridade policial responsável, por sua vez, disse apenas o que seguiu acima, que o material segue sendo averiguado.
Já o advogado de Lula, Cristiano Martins Zanin, explica que "é evidente que cabe ao juiz zelar pela restituição do material apreendido, independentemente das alegações da autoridade policial. Até porque parte dos bens apreendidos pertencem a familiares do ex-Presidente Lula que sequer foram alvo da medida e, por isso mesmo, jamais poderiam ter sido levados."

Folha de São Paulo

Vladimir Safatle


Um fascista mora ao lado

Marcelo Cipis/Marcelo Cipis/Editoria de Arte/Folhapress
Cipis de 03 de Março de 2017
Há alguns dias, foi publicada a última pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial de 2018. Três fenômenos são dignos de nota: a ascensão de Lula, que venceria hoje em todos os cenários, a queda de todos os candidatos ligados de forma ou outra ao atual desgoverno e a consolidação do sr. Jair Bolsonaro em segundo lugar, em empate técnico com Marina Silva.
Um leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%).
Já há algum tempo, o termo "fascista" é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político.
No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.
Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.
Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).
Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.
Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.
Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan "devolva o meu país", fecha o círculo.
Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.
Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à "desordem" e à abertura produzida pela revolta de 2013.
Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devemos "dialogar" com tal setor da população.
Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos.
Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.
De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Ex-procuradores-gerais inocentam Lula

Antonio Fernando de Souza: "Lula nunca interferiu em meu trabalho"
publicado 02/03/2017
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Conversa Afiada reproduz do site do Presidente Lula:
O ex-procurador-geral Cláudio Fonteles (2003-2005), em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro presidente a respeitar o resultado da votação interna do Ministério Público, indicando o primeiro colocado da lista para o cargo de Procurador-Geral da República. Disse ainda que Lula e o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos nunca interferiram na atuação do Ministério Público durante sua gestão.
Outro a testemunhar hoje foi o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza (2005-2009), indicado por Lula depois de vencer as eleições internas do Ministério Público e responsável pela denúncia do mensalão. Souza afirmou que Lula jamais interferiu em seu trabalho como procurador-geral: "Nunca houve nenhum pedido de Lula, diretamente dele ou por interposta pessoa, que interferisse nos atos do procurador-geral. Jamais houve qualquer pedido dele nesse sentido". Para Souza, que conduziu as investigações do mensalão na ação penal 470: "Não havia nada que justificasse apresentar ação contra o ex-presidente Lula". Ele também disse que, no período em que ocupou o cargo,  não recebeu qualquer informação sobre ilícitos na Petrobras. 

Fontelles ainda acrescentou que o governo Lula criou em 2003, no âmbito do Ministério da Justiça, a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (Encla). Segundo ele, a partir dessa iniciativa teve início a integração entre o Ministério Público Federal e diversos órgãos de investigação (como CGU, PF, COAF e Receita Federal). "Pela primeira vez se quebrou o paradigma de que o Ministério Público ficava apartado dos mecanismos de investigação, fundamental para o combate da macro-criminalidade", disse o ex-Procurador-Geral da República. 

janio de freitas
Colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos e quintas-feiras.

História do pedido de Temer à Odebrecht pode valer a Presidência

Jorge Araujo/Folhapress
São Paulo SP Brasil 20 02 2017 O presidente Michel Temer em a de São Paulo no Teatro WTC participou da â€Apresentação do plano de modernização e desburocratização da agricultura e solenidade de lançamento do AGRO+SPâ€.Também participaram o ministro Blairo Maggi (Agricultura), o governador Geraldo Alckmin e o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Fábio Meirelles. MERCADO. Jorge Araujo Folhapress 703 ORG XMIT: XXX
O presidente Michel Temer (PMDB)
A história dos R$ 10 milhões dados pela Odebrecht a pedido de Michel Temer, na campanha de 2014, vale bem mais do que aqueles milhões. Se os inquéritos que "estão mudando o Brasil" fossem menos sinuosos, a história poderia valer a Presidência da República. E dar uma dimensão mais real ao ataque à corrupção que vai da política aos cofres públicos e privados.
(A propósito: se um empresário de obras públicas é convidado a jantar com o vice-presidente da República, em palácio, e dele ouve um pedido explícito de dinheiro, que alternativas tem para sua resposta?)
O advogado José Yunes, amigo mais próximo de Michel Temer, diz que "até hoje" não sabe o que havia no envelope entregue em seu escritório pelo doleiro Lúcio Funaro, para alegado repasse a Eliseu Padilha.
Ao relatar o fato, como quem precisa lavar as mãos enquanto é tempo, Yunes definiu-se como "mula" de Padilha. Ora, no jargão policialesco, "mula" é o transportador de dinheiro ou de droga. Não havendo motivo para supor que Padilha esperasse remessa de droga, Yunes só poderia ver-se como "mula" se soubesse haver dinheiro na encomenda.
Por certo, não a entregou a qualquer um. Mas não revela quem a levou ao destinatário, se não foi ele próprio. Nem quem foi esse destinatário, se Padilha ou o seu amigo de confiança. Não evitou, porém, um esclarecimento insidioso, por vontade ou não, ao jornalista Lauro Jardim: "Contei tudo ao presidente em 2014. (...) Ele não foi falar com o Padilha. O meu amigo reagiu com aquela serenidade de sempre [risos]". Nem precisava dos risos.
A nota presidencial, a propósito das palavras de Yunes, admite que Temer pediu à Odebrecht "auxílio formal e oficial", e "não autorizou nem pediu que nada fosse feito sem amparo nas regras da Lei Eleitoral. (...) É essa a única participação do presidente no episódio".
Única, não. O pedido ao convidado Marcelo Odebrecht resultou de propósitos financeiros definidos ou, no mínimo, autorizados por Temer.
São declaráveis e comprováveis? A responsabilidade (i)legal é de quem teve a iniciativa do pedido, do recebimento mesmo que indireto, e da destinação. E nesse aspecto Temer se apresenta como omisso, seja por conveniência ou não. Apresenta-se mas não é.
As possíveis implicações desse trecho do episódio são muitas e graves. A comprová-lo há, entre outros indicativos, palavras escritas por Eduardo Cunha.
Nas perguntas que dirigiu a Michel Temer, dando-o como testemunha de defesa em um dos inquéritos a que responde, Cunha questionou-o sobre a entrega de dinheiro a Yunes. Como todo o questionário, a pergunta era um homicídio verbal. Ali estavam questões que talvez nem servissem de defesa a Cunha, como o cala boca de R$ 1 milhão que lhe teria vindo da "doação" da Odebrecht.
Mas as perguntas levavam a veredas que, partindo de Temer, se irradiavam pelos descaminhos da política e de seus condutores.
Não pôde ser assim. Nem alguma coisa parecida. Antes que José Yunes se admitisse uma "mula", a Lava Jato já sabia sobre os R$ 10 milhões acertados em jantar no Palácio do Jaburu.
O juiz Sergio Moro já podia saber, portanto, o que aquela pergunta de Cunha a Temer representava. Proibiu-a. Assim como várias outras, elaboradas com doses de venenos reveladores. Censura dita judicial.
Michel Temer beneficiou-se. Moro argumentou que as perguntas não tinham pertinência no tema do inquérito –o que, de resto, não poderia saber antes de conhecer as respostas e suas implicações. 


Folha de São Paulo