quinta-feira, 4 de maio de 2017

quarta-feira, 3 de maio de 2017


Com Aécio e Alckmin na frigideira, PSDB vai a Doria: mas quem é ele?


Elio Gáspari
Folha de São Paulo

Tucano tem uma peculiaridade. Quando alguém discorda dele, o doutor repete o que acabou de dizer. Afinal, sua sabedoria é tamanha que, se alguém discorda, isso é sinal de que não entendeu.
Mesmo aceitando-se essa superioridade intelectual, a última pesquisa do Datafolha mostrou que chegou a hora de o tucanato entender que Aécio Neves e Geraldo Alckmin estão na frigideira.
Eduardo Frazão/FramePhoto/Folhapress
Vestido de verde e amarelo, o prefeito João Doria inaugura nesta segunda a praça Ayrton Senna, no Ibirapuera (zona sul de SP)
Vestido de verde-amarelo, João Doria inaugura a praça Ayrton Senna, no Ibirapuera
Presidente do PSDB, o neto de Tancredo Neves governou Minas Gerais durante oito anos, elegeu seu sucessor, teve 51 milhões de votos na eleição de 2014 e hoje tem 8% das intenções de voto. Em alta, só a sua rejeição (44%), disputando com Lula (45%).
Geraldo Alckmin, o cidadão que por mais tempo ocupou o governo de São Paulo desde os tempos coloniais, foi candidato a presidente em 2006. Sua rejeição pulou de 17% para 28%, enquanto as intenções de voto em seu beneficio caíram de 8% para 6%.
Só a propensão a repetir a proposta quando o interlocutor discorda (no caso, o eleitorado brasileiro) pode explicar que o tucanato ficasse preso na bola de ferro do dilema Aécio-Alckmin.
Atribuir a fritura dos dois às nuvens que a Odebrecht colocou em suas biografias é um exagero. Ambos estão em queda desde dezembro. Os dois foram corroídos pela ferrugem do tucanato e pela radioatividade que Michel Temer transmite aos seus aliados. Os sábios do PSDB também não podem reclamar da plataforma plutófila do presidente, pois ela se parece mais com a alma tucana do que com a esperteza do PMDB.
O instinto de sobrevivência do PSDB arrasta os tucanos para o colo do prefeito paulistano, João Doria. O que ele representa ninguém sabe e, pela sua conduta política, pode vir a representar qualquer coisa. Intitula-se um "gestor", linda palavra, uma das favoritas de Sérgio Cabral quando assumiu o governo do Rio.
Capaz de encantar um conservadorismo órfão, Doria terá um ano para mostrar serviço. Alguns de seus tiques assustam. Em certos momentos, seu sorriso lembra o de Jack Nicholson na inesquecível cena do museu de Gotham City, quando o "Joker" salva um quadro de Francis Bacon.
Doria oscila entre boas iniciativas e o mundo da lua. Com o Corujão da Saúde, descongestionou a fila de exames médicos da cidade. Acabou com o tratamento de "excelência" nos documentos oficiais e extinguiu a edição em papel do "Diário Oficial". Quando vai para mundo da lua, aumenta a velocidade permitida em vias expressas ou tenta transformar o Uber num instrumento a serviço de fura-greves.
Joia de sua coroa, o diretor da biblioteca municipal resolveu encrencar com o samba, logo com o samba. O desenho final de seu projeto de privatizações, sobretudo a do autódromo de Interlagos, mostrará se ele tem a cabeça de um Carlos Lacerda, criando o aterro do Flamengo, ou de um Eduardo Paes, tentando entregar a marina da Glória ao empresário Eike Batista.
Há um aspecto triste na ferrugem tucana. O partido de Franco Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso não formou quadros políticos. (Foi uma verdadeira usina de gênios, mas eles foram todos para bem sucedidas carreiras no mercado financeiro). Obcecado pela figura de Lula, o PSDB fez-lhe tamanha oposição que se esqueceu de cuidar da própria 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Helena Sthephanowitz
 
Na Rede Brasil Atual
 
 
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) já foi citado em pelo menos três delações de ex-executivos da Odebrecht, todas no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal e do juiz Sergio Moro. Recentemente, o dono da construtora, Emílio Odebrecht, afirmou ter feito "pagamentos ilícitos" durante as campanhas eleitorais de Fernando Henrique à Presidência da República, nos anos de 1993 e 1997. A acusação do empresário deveria ser motivo de constrangimento para quem costuma se apresentar como campeão da moralidade. Mas não. Só fez mudar o discurso: conforme as acusações vão chegando nos tucanos, mais se fala que caixa dois não é corrupção, é "apenas" um "ilícito" contábil. E é assim, com a fidelidade da mídia tradicional, que trata bem diferente as irregularidades de que acusam o PT, que Fernando Henrique continua circulando pelas altas rodas, certo de sua impunidade.
 
E foi com tal capacidade de potencializar o cinismo que Fernando Henrique esteve em Brasília, na terça-feira da semana passada (25 de abril), para um jantar com a presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia. O encontro não constava da agenda da ministra e o teor da conversa foi mantida em absoluto sigilo, o que torna esse encontro inadequado, para dizer o mínimo.
 
O ex-presidente não é investigado no STF. Por não ter mais foro privilegiado, o ministro Edson Fachin enviou à Procuradoria da República em São Paulo o inquérito para investigar as acusações feitas contra o tucano máximo. Mas o PSDB, partido de Fernando Henrique, é.
 
São sete dos 12 parlamentares tucanos – três no Senado e quatro na Câmara – que serão julgados pelo Supremo. Quatro deputados do PSDB são acusados de participação no núcleo de propina da Odebrecht. 
 
Entre os senadores, estão dois ex-candidatos à presidência da República: Aécio Neves (MG) e José Serra (SP). O primeiro figura em cinco inquéritos. A lista ainda tem o atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Ferreira Nunes.
 
Outras figuras, como a ex-governadora e deputada federal Yeda Crusius (RS), o ex-senador José Aníbal (SP) e o ex-governador de Minas Antonio Anastasia também são denunciados nos processos.
 
Tucanos graúdos, como os governadores Geraldo Alckimin (SP), Beto Richa (PR), Marconi Perillo (GO), além do prefeito de Ribeirão Preto (SP), Duarte Nogueira, e o de Manaus, Arthur Virgílio Neto, tiveram os processos remetidos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O mesmo tribunal onde Fernando Henrique esteve na semana passada participando de um seminário. O mesmo STJ que abriga os ministros Humberto Martins, e Benedito Gonçalves, citados nas negociações de delação de executivos da OAS a procuradores de Curitiba.
 
Coincidentemente, após as visitas aos amigos nos tribunais superiores, o ex-presidente declarou à imprensa  "não há razões para eu estar em apuros". De fato. Os tucanos são imunes à Justiça. Apesar das inúmeras denúncias, não há nenhuma iniciativa do Judiciário contra os figurões do PSDB.
 
Uma nova denúncia envolvendo o governador Geraldo Alckmin evidencia, mais uma vez, os dois pesos e as duas medidas da justiça brasileira. O depoimento do ex-executivo da Odebrecht em São Paulo Luiz Bueno foi excluído do processo de investigação contra o governador tucano nos documentos entregues ao Supremo Tribunal Federal.
 
Segundo relatos que integram o processo da Procuradoria-Geral da República (PGR), Alckmin recebeu R$ 8,3 milhões em 2014 e R$ 2 milhões em 2010 "não declarados". No inquérito, Bueno foi descrito pela PGR, como "peça-chave" por ser o responsável por negociar valores e organizar os repasses da propina para Marcos Monteiro, hoje Secretário de Planejamento e Gestão de Alckmin, nos esquemas que envolvem a campanha de  Alckmin em 2014 – Metrô de SP, trens da CPTM, Rodoanel e outras grandes obras na capital paulista incluídas.
 
Apesar de o juiz Sergio Moro já ter afirmado, em entrevistas e palestras – que hoje no Brasil ninguém esta acima da lei, fato é que até o momento nenhum político tucano sofreu condução coercitiva, foi interrogado, investigado, teve seu nome achincalhado na Rede Globo ou foi preso.
 
Nada indica que, nos casos de FHC, Serra, Aécio e outros tucanos de alta plumagem, será adotado o mesmo procedimento que adversários políticos de Moro e do PSDB receberam e continuam recebendo.
 
É preciso lembrar à ministra Carmem Lúcia, parodiando um antigo dito popular, "o cala-boca ainda não morreu". Os brasileiros vão continuar questionando os tribunais, perguntando e insistindo: quando veremos um tucano na cadeia?

A direita isolada

Pablo Ortellano
Folha de São Paulo
Dhiego Maia/Folhapress
Manifestantes da Força Sindical carregam caixão em dia de greve geral, na sexta (28), em SP
Manifestantes da Força Sindical carregam caixão em dia de greve geral, na sexta (28), em SP

Durante muito tempo a esquerda esteve isolada, desconectada do que pensavam os brasileiros, e terminou pagando um preço alto. Enquanto uma sólida maioria considerava a corrupção um problema grave, a esquerda desdenhava e dizia que discutir corrupção era moralismo, que a corrupção era inerente a qualquer economia capitalista e que a preocupação com o tema não tinha enraizamento e tinha sido artificialmente insuflada pelos meios de comunicação. Enquanto isso, a corrupção se transformava na principal preocupação dos brasileiros, as investigações da Lava Jato estigmatizavam o PT como o partido da corrupção e protestos anticorrupção massivos legitimavam as manobras parlamentares que impediram a presidente Dilma.
Vemos agora uma curiosa inversão. Acostumados a contar com os ventos da opinião pública, os que defendem as reformas liberais do governo Temer se vêm subitamente navegando contra a corrente. E não parecem ter aprendido nada com a experiência da esquerda.
As evidências gritam por todo lado:71% dos brasileiros são contrários à reforma da Previdência, 64% acreditam que a reforma trabalhista só beneficia os empresários e a aprovação do presidente Temer caiu para baixíssimos 9%, um nível de aprovação equivalente ao dos presidentes impedidos Dilma Rousseff e Fernando Collor.
Apesar disso, representantes do governo e partidários das reformas não tiveram pudor em desqualificar aqueles que traduziam em atos a opinião da grande maioria. O ministro Osmar Serraglio, por exemplo, considerou a greve do dia 28 uma "baderna generalizada", o prefeito de São Paulo, João Doria, tratou os grevistas como "preguiçosos" e como "vagabundos" que "não querem trabalhar", e pelas redes sociais militantes de direita inundaram as caixas de comentários com impropérios.
Há uma espécie de atraso cognitivo nesses atores que não entenderam ainda que não jogam mais a favor da opinião pública. Eles são agora como os petistas de meses atrás que agrediam quem expressava a insatisfação geral com a corrupção, chamando a todos de "coxinhas", de "golpistas" e de defensores de "privilégios".
Não parece muito sensato antagonizar com tanta agressividade um sentimento enraizado na maioria. Isso deveria ser senso comum em qualquer democracia liberal, mas parece que as regras usuais não valem neste período extraordinário em que vivemos.
O presidente Michel Temer entende que a impopularidade é um ativo do seu governo. Já que seus índices de aprovação são tão baixos, ele pode se dar ao luxo de impor medidas impopulares, pois não tem muito mais a perder. Além disso, ele não se vê preso a uma agenda referendada pelas urnas, já que ascendeu ao poder num processo de impeachment amparado por protestos, o que interpreta como carta branca para virar do avesso o programa que venceu as eleições de 2014.
Não é à toa que os brasileiros estão tão convencidos de que é hora de antecipar as eleições presidenciais e por um fim ao seu governo, como mostra pesquisa do Datafolha. No momento, nenhuma força política parece disposta a mover as peças para fazer isso acontecer, mas a conjuntura tem mudado muito rapidamente nestes tempos. 

Deputado do PSDB quer que trabalhador rural seja pago com casa e comida e que possa ter jornada de até 18 dias sem descanso

02 de maio de 2017 às 13h29

  
Da Redação
Se a gente não tivesse publicado o recorte do Valor Econômico vocês não iriam acreditar.
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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Por Paula Cesarino Costa
 
Na Folha
 
 
Assim como a de milhões de brasileiros, minha rotina diária foi alterada pela greve geral da sexta-feira, 28. Lojas de que precisei estavam fechadas; no supermercado, o gerente disse que apenas um terço dos funcionários comparecera; a experiência nos aeroportos de amigos e familiares que viajaram foi sofrida, apesar de a Folha ter dito que os aeroportos funcionaram normalmente. Pode não ter sido um caos, mas normal não foi.
 
De modo geral, esse foi o problema da cobertura da greve geral convocada contra as reformas da Previdência e das leis trabalhistas. Focou a alteração da rotina das cidades, de modo previsível, sem inventividade nem relatos ricos.
 
Em suma, os jornais se concentraram no impacto sobre as árvores e deixaram de abordar a situação da floresta. A velha imagem é eficiente por condensar a mensagem de modo tão claro.
 
Um parágrafo do editorial da Folha trazia o resumo do que pretendo dizer quando cobro abordagem mais ampla: "Em nenhum país do mundo, propostas de redução de direitos relativos à aposentadoria contarão com apoio popular. Governantes, em geral, só as apresentam quando as finanças públicas já estão em trajetória insustentável. Este é, sem dúvida, o caso do Brasil".
 
Essa é a visão da floresta que deveria ser discutida nos jornais. É preciso acrescentar que a discussão sobre a reforma trabalhista é também uma discussão sobre perda de direitos, contraposta à possibilidade de dinamização e crescimento do mercado do trabalho –promessa de comprovação difícil. Esses são os dois lados da moeda.
 
Pode-se até afirmar que essa discussão está presente no jornal. Não com a clareza do dilema exposto pelo editorial da Folha: está em jogo a perda de direitos em nome do ajuste fiscal. Jornais estrangeiros assim enquadraram a manifestação. A imprensa brasileira abriu mão da discussão sobre a floresta.
 
A greve geral convocada por centrais sindicais e movimentos de esquerda mostrou que a mídia precisa se qualificar para esse tipo de cobertura, complexa e de altíssimo interesse do público leitor.
 
Quase em uníssono, os três principais jornais destacaram nas manchetes de suas edições impressas o efeito no transporte e a violência com que terminaram manifestações em São Paulo e no Rio.
 
Será que o vandalismo em pontos isolados do Rio e de São Paulo era notícia a destacar em enunciado de manchete, se a própria Folha escreveu que a calmaria reinou durante quase todo o dia? Por que valorizar as cenas de confronto, em vez de imagens que pudessem, por exemplo, mostrar o que diziam as faixas levadas às manifestações.
 
A greve paralisou, segundo o noticiário da Folha, parcialmente as atividades nas principais capitais do país e em ao menos 130 municípios, em todos os Estados e no Distrito Federal. Os organizadores classificam como a maior greve da história do país: cerca de 40 milhões paralisaram suas atividades.
 
Não há reportagem ou quadro na edição que diga qual era exatamente o objetivo da greve ou, se fosse o caso, a análise de seu impacto nos objetivos do movimento.
 
Há dois pontos básicos a que o jornal, na minha avaliação deveria ter respondido:
 
Qual foi o tamanho da paralisação? Era preciso encontrar parâmetros que permitissem ao leitor entender o que foi o movimento de agora em comparação com convocações anteriores.
 
Quais as possíveis consequências da greve? Terá algum efeito em seu objetivo principal de parar a tramitação das reformas trabalhista e da Previdência, obrigando Executivo e Legislativo a negociar com a sociedade e os sindicatos?
 
Eram desafios difíceis, mas a imprensa não conseguiu nem chegar perto de enfrentá-los.
 
À exceção dos colunistas André Singer e Demétrio Magnoli, não houve tentativa de interpretação do que aconteceu. Cientistas políticos, sociólogos e analistas não estão nas páginas da Folha ajudando a entender o que aconteceu e o que pode vir a acontecer.
 
Deputados e senadores não se manifestaram de forma a sinalizar se o protesto pode vir a ter algum efeito objetivo nos projetos em discussão. Apenas o governo federal fala, expressando a óbvia e obrigatória avaliação de que adesão foi pequena, fracassou.
 
Ainda há muito a aprender e a ser desenvolvido em cobertura de casos dessa magnitude.
 
Na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar.


Da Folha
Por Lira Neto
Muita gente fez cara de nojo. Como as autoridades permitiriam tamanho disparate? De quem teria partido a ideia de profanar o palco do Theatro Municipal de São Paulo -templo sagrado da cultura erudita, símbolo dos anseios cosmopolitas da mais alta sociedade paulistana-, permitindo a apresentação de um reles sambista, animador de gafieiras e cabarés do Rio de Janeiro?
Choveram protestos contra a presumida infâmia. José Barbosa da Silva, o Sinhô, coroado Rei do Samba pela imprensa carioca, iria protagonizar, de violão em punho, noitada musical em uma das principais casas de espetáculos do país, construção luxuosíssima, inspirada na Ópera de Paris e erigida com recursos provenientes das algibeiras dos barões do café.
Era maio de 1929. Enquanto a aristocracia e setores da intelectualidade conservadora esbravejavam, o escritor modernista Mário de Andrade, na coluna "Táxi", no "Diário Nacional", sentenciava, com a autoridade de agudo estudioso dos saberes populares: "Sinhô é poeta e músico".
Para o autor de "Pauliceia Desvairada", Sinhô detinha "aquele riso de experiência divertida, aquela leveza de borboleta, ingenuidade originalíssima, esperteza defensiva que só mesmo os índios, as crianças e os cariocas possuem".
Para os que julgavam o samba e a arte de Sinhô elementos de um vulgarismo e banalidade sem par, Mário contrapunha: "Vulgaridades e banalidades apenas para os indivíduos que não sabem reaprender, todos os dias, certos fenômenos, certas reações essenciais diante do amor, da pândega e da sociedade". E arrematava: "Mas nisso quem tem culpa não é Sinhô, não é o índio, não é a criança, não é o carioca. É o que se supõe culto".
Impossível não lembrar de Mário quando se lê a entrevista concedida, há poucos dias, por Charles Cosac a esta Folha. Empossado como novo diretor da maior biblioteca pública de São Paulo -batizada justamente com o nome do autor de "Macunaíma"-, Cosac anunciou que irá extinguir o projeto Samba na Varanda, cuja programação ocorria no terraço da Biblioteca Mário de Andrade, sempre com rodas temáticas: samba e religiosidades da diáspora africana, samba e consciência negra, samba e resistência simbólica. "Cortei", afirmou o diretor. "Já basta o samba do boteco ao lado."
Para o homem que está no comando da biblioteca fundada em 1925 e que desde 1960 passou a se chamar Mário de Andrade, lugar de samba -e de sambista- é no boteco.
Jamais no recinto de uma instituição cultural. "Não aguento duas rodas de samba", explica-se Cosac. A justificativa denota não apenas um elitismo que recende ao bolor beletrista anterior à Semana de Arte Moderna de 1922 mas também o desconhecimento do que seja a função de um gestor público na área da cultura. O samba nos botecos do centro de São Paulo, espaço de sociabilidade que já faz parte indissolúvel do cotidiano dos paulistanos, não "compete" com o trabalho pedagógico e reflexivo que vinha sendo desenvolvido pela biblioteca com base nas sonoridades das culturas populares.
O que mais espanta é tais declarações terem partido de um ex-editor que, à frente da Cosac Naify, publicava extraordinária série de livros de antropologia que desafiavam o etnocentrismo da razão ocidental. Nela, figuravam autores como Lévi-Strauss, Eduardo Viveiros de Castro, Pierre Clastres, Marcel Mauss e Roy Wagner, entre outros. "É claro que tenho minhas preferências musicais, mas elas não estão sendo impostas", emenda Cosac, piorando o soneto. "Senão eu não botava chorinho, eu odeio chorinho."
Quem também parece detestar chorinho é André Sturm, secretário municipal de Cultura. Ele acaba de despejar o Clube do Choro de sua sede, o teatro Arthur de Azevedo, na Mooca. O secretário, em entrevista ao "Estado de S. Paulo", afirmou que "chorinho não é meta" e o Clube do Choro "não tem história".
Talvez não saiba que os chorões paulistas, reunidos em torno da associação que agora foi parar no olho da rua, faziam precioso trabalho de formação de plateia e de descoberta de jovens talentos musicais da periferia, dando prosseguimento a uma dinastia de grandes virtuoses que remontam ao pioneirismo dos geniais Aimoré, Armandinho, Canhoto e Garoto.
Resta-nos, quando menos, evocar Mário de Andrade e o versos de "Paisagem Nº 1", um dos poemas de "Pauliceia Desvairada": "Meu coração sente-se muito triste/ Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas/ Dialoga um lamento com o vento".