sexta-feira, 19 de maio de 2017

O alvo final é Lula, por Mauro Santayana

lula_curitiba_ricardo_stuckert.jpg
Foto: Ricardo Stuckert
Do blog de Mauro Santayana
por Mauro Santayana
Aqueles que estão soltando foguetes que nos desculpem, mas não nos colocamos entre os que comemoram, efusivamente, as últimas notícias. 
Moralmente e por uma questão de princípios em defesa da democracia, quem está contra os casuísmos e arbitrariedades jurídico-investigativas da Operação Lava Jato no caso de Lula, tem que se manter contra esse tipo de coisa também quando o atingido é o campo adversário.
Até mesmo porque parte, e faz parte da estratégia, de quem tem apenas um interesse: o seu próprio lado.  
Não vemos como solução para o país um impeachment de Temer a ser conduzido pela figura nefasta da Janaína Paschoal, que já  defende essa hipótese para aparecer nos jornais, nem a  convocação de eleições indiretas para a Presidência da República para as quais a mídia  já especula, significativamente, citando o nome de Sérgio Moro, se "magistrado poderá ser candidato".
Isso, em um processo a ser conduzido por um congresso majoritariamente golpista, em grande parte também investigado por uma operação cuja autoridade máxima é o próprio "chefe" da  República de Curitiba.
A ideia de uma nova campanha pelas Diretas Já é correta, do ponto de vista da lógica democrática.
Mas se formos objetivos e pragmáticos,  considerando a atual situação política, retira tempo precioso da oposição, que poderia ser utilizado, caso as eleições se fizessem normalmente em 2018, para que Lula se recuperasse e refizesse - aproveitando a crescente impopularidade do governo Temer e denunciando e esclarecendo as mentiras de que tem sido alvo - sua relação com a opinião pública e seu caminho para a Presidência da República.
Uma eleição agora, mesmo que direta, pode jogar o poder no colo de Jair Bolsonaro, apoiado pela sensação de caos institucional, pela condição de não estar sendo processado pela Lava Jato, e, caso chegue ao segundo turno, como as pesquisas indicam, por uma aliança que abrangeria da extrema-direita a setores mais oportunistas do próprio PMDB e do PSDB, passando pelo "centro" fisiológico dos partidos  nanicos conservadores, unida pelo objetivo comum de evitar, a qualquer custo, que o PT e sua "jararaca" voltem à Presidência da República.
Finalmente, a leitura mais correta é de que os principais alvos das mais recentes manobras da "justiça" não sejam nem Temer nem Aécio, por mais implacáveis que sejam, contra ele, os juízes e procuradores.
As acusações contra os dois foram forjadas - já que se tratam claramente de arapucas propositadamente montadas -  como forma de abrir caminho, definitivamente, para a condenação de Lula.
A percepção da população de que a Justiça e o Ministério Público estavam sendo totalmente seletivos e parciais no trato dos gregos com relação aos troianos vinha crescendo a olhos vistos nas últimas semanas, e aumentava, na mesma proporção, a popularidade e as intenções  de voto do ex-presidente da República, especialmente depois de seu depoimento em Curitiba e da absurda proibição de funcionamento do seu instituto.
Com as acusações contra Temer e Aécio, o anti-petismo entrega duas torres para capturar e eliminar o Rei que odeia e persegue, sem êxito, há tanto tempo.
  
A partir de agora, ninguém pode mais dizer que a Operação Lava Jato só atinge o PT, enquanto afaga seus adversários.
E Lula poderá então, ser condenado "exemplarmente" por Moro,  aproveitando-se o caos político que tomará conta do país nas  próximas semanas, sendo definitivamente impedido de voltar por via eleitoral ao Palácio do Planalto, tanto agora, em eventuais  "Diretas Já", como em 2018.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Deputado que teria recebido propina das JBS está com João Doria nos EUA
O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) não é um dos nomes mais conhecidos no cenário político nacional. Suplente de Osmar Serraglio, que assumiu o Ministério da Justiça em março deste ano, o parlementar era, até então, um nome quase desconhecido para o grande público.
No entanto, após as denúncias desta quarta-feira (17), Loures teve seu nome envolvido em um enorme escândalo. Ele teria sido o escolhido pelo presidente Michel Temer para “resolver” um problema para a J&F, holding que controla a empresa frigorífica JBS.
Segundo o presidente da empresa, Joesley Batista, em denúncia publicada pelo jornal O Globo, Temer indicou Loures para interceder a favor da JBS. O deputado teria sido filmado recebendo uma mala de dinheiro.
Enquanto Temer e sua base aliada correm para minimizar os efeitos da denúncia, Loures está bem longe: mais precisamente, em Nova Iorque, acompanhando o prefeito de São Paulo, João Doria.
O tucano está nos Estados Unidos, onde recebeu um prêmio, se reuniu com o ex-prefeito nova-iorquino Michael Bloomberg e também com investidores americanos que procuram oportunidades de negócio no Brasil.
Loures, que é Membro Titular, Conselho da Micro, Pequena e Média Indústria da FIEP (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), viaja junto do prefeito paulistano.
Essa não foi a primeira interação entre os dois políticos: em abril deste ano, Loures e Doria participaram do 16º. Forum Empresarial, em Foz do Iguaçu, promovido pela empresa LIDE, da qual Doria é dono.
Em uma postagem do Facebook, Loures posa para foto abraçado com Doria. “Estamos reunidos aqui no Paraná no evento promovido pelo LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, fundado pelo meu amigo e Prefeito de São Paulo, João Doria”, escreveu o deputado, demonstrando intimidade com o tucano.
Homem de confiança de Temer, Loures foi conselheiro especial da presidência logo após o impeachment de Dilma Rousseff.
No PMDB desde 2005, ele foi deputado federal pelo Paraná de 2007 até 2011. Nas últimas eleições, acabou não sendo eleito, mas assumiu como suplente de Osmar Serraglio.
Ferrenho defensor das reformas e das empresas Rodrigo Rocha Loures é filho de Rodrigo Costa da Rocha Loures, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT).
PS do Viomundo: Segundo o blog do Esmael, especialista nos assuntos do Paraná, Rocha Loures foi um dos participantes mais entusiasmados da reunião em que o PMDB decidiu entregar os cargos no governo Dilma, mas não se demitiu imediatamente do cargo que ocupava, de assessor da vice-presidência. Segundo o Lupa, eis as datas de nomeação dele: “No dia 23 de janeiro de 2015, Rodrigo Rocha Loures foi nomeado chefe da Assessoria Parlamentar da Vice-Presidência da República, então ocupada por Michel Temer. Três meses mais tarde, em 29 de abril de 2015, passou à chefia de gabinete da Secretaria de Relações Institucionais. Em setembro do ano passado, Rocha Loures voltou a trabalhar diretamente com Temer, ao ser nomeado Assessor Especial do Gabinete Pessoal da Presidência”.

Por trás da operação Aécio, a sombra de Serra

Por trás do vazamento da delação da JBS, ontem, pode estar uma velha disputa entre o grupo de José Serra e o de Aécio Neves na Polícia Federal.
Hoje de manhã foi deflagrada a operação contra o senador Aécio Neves, autorizada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e com pedido de prisão de sua irmã Andréa Neves. A operação já estava marcada há dias. Por isso, há suspeita - na PF - de que o vazamento tenha sido uma tentativa desesperada do grupo de Aécio, na PF ou na PGR (Procuradoria Geral da Repúbica) de avisar os alvos para se desfazerem de provas.
Ontem por volta das 16:30 houve uma reunião tumultuada entre o delegado geral da PF Leandro Daiello e o grupo. Temia-se que a operação pudesse ser cancelada. Não foi.
Aécio fincou pé na PF depois que foi alvo de armação do grupo do senador José Serra na corporação. Ambos disputavam a liderança no PSDB. Liderado pelo ex-policial Marcelo Itagiba, o grupo de Serra tentou flagrar Aécio em uma boate no Copacabana Pálace. Aécio foi avisado a tempo e se safou da armação.
A partir do episódio, decidiu fincar montar seu grupo na PF. E, através do Estado de Minas, produziu o mais contundente documento até agora contra Serra, o livro “Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Jr.
No final de 2014, a PF de Serra montou uma operação em cima do governador mineiro eleito, Fernando Pimentel, pensando pegar dois pombos com um só tiro, julgando que ainda estaria em vigor o pacto de Minas, dele com Aécio, que resultou na eleição de Márcio Lacerda para a prefeitura de Belo Horizonte.
No início do governo Lula, aliás, a ponte entre PSDB e PT era garantida pelo pacto mineiro.
Foi preso, então, o marqueteiro Benedito Oliveira, o Bené, dentro da Operação Acrônimo. Desde então, a PF de Serra vem mantendo o noticiário aceso: periodicamente saem denúncias contra Pimentel, todas provindas da mesma delação de Bené e saindo na mesma publicação, o Estadão, aparentemente o último veículo em que Serra mantém influência.
A ação da PF de Serra só não evoluiu porque esbarou no ex-Ministro Nelson Jobim que se casou em segundas núpcias com Adrienne Giannetti Nelson de Senna, que fez brilhante carreira no serviço público - foi uma das primeiras presidentes do COAF (Conselho do Controle de Atividades Financeiras) – e é de uma família dona de empreiteira que mantém boas relações com Pimentel e Aécio.
Jobim teve papel relevante para garantir a estabilidade política junto ao Supremo. E se credenciou como pessoa capaz de costurar pactos entre PSDB e PT.
A investida contra Aécio se dá em um momento em que Serra fugiu de todo noticiário, visando se preservar.
Obviamente, a operação não foi engendrada pelo grupo de Serra, mas devido às delações-bombas dos irmãos Batista, da JBS.
Os artistas que apoiam Aécio


quarta-feira, 17 de maio de 2017

As manipulações e expectativas da crise econômica na imprensa, por Paulo Kliass

globo_reproducao.jpg
Foto: Reprodução
Da Carta Maior
A cada dia, formadores de opinião vinculados ao financismo garimpam arduamente alguma notícia para tentar comprovar que a bonança está logo ali na esquina
por Paulo Kliass
As forças políticas e os interesses econômicos que se articularam e conspiraram abertamente para o êxito do movimento que provocou o golpeachment estão em estado de alerta. Afinal, sonhavam com um futuro bem mais róseo e um pouco menos problemático do que a realidade que vivemos atualmente em nosso País.

As recomendações que sussurravam nos ouvidos dos liberais e dos conservadores ainda hesitantes em apoiar a solução ilegal e carente de base constitucional poderiam ser resumidas em um mantra sedutor: ‘Não se preocupe não. É fácil. Primeiro a gente tira a Dilma. Depois, tudo o mais se acerta”.
Na tentativa de conferir mais solidez e um pouco de aparência de seriedade ao movimento que jogou a institucionalidade democrática na lata do lixo, a agremiação partidária que deu a liga ao impedimento da presidenta eleita divulgou até um programa alternativo de governo. “Uma ponte para o futuro”converteu-se no documento para justificar as ações que visavam construir a manobra para que Temer se apoderasse do Palácio do Planalto.

O texto elaborado sob a responsabilidade do Presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Wellington Moreira Franco, representa a antítese de tudo aquilo que havia sido discutido durante a campanha eleitoral de outubro de 2014. Em resumo, o material elenca um conjunto de proposições de redução de direitos sociais e de liberalização da economia que viabilizariam a entrada no paraíso. E o vice-presidente em exercício parece ter aprendido direitinho o seu dever de casa. Passou a implementar tudo como sugerido ali ao longo das 19 páginas. Desde a reorientação da política externa até a destruição da previdência social, passando pela reforma trabalhista e por concessão de maiores benesses para o capital privado.

Temer: um ano de desastre social e econômico.
O problema é que passado mais de ano desde a usurpação do poder federal, a sociedade brasileira tem percebido que o mergulho na tragédia derivada da adoção do austericídio como programa básico de governo não proporcionou nenhuma melhoria. O futuro chegou e a ponte mais se parece com uma pinguela cujo eixo está voltado para o passado. A recessão econômica continuou firme e solta desde então, com as consequências trágicas das falências e do desemprego a níveis nunca antes atingidos.

Assim, concretizou-se a frustração de todos os que acreditavam na fábula da fadinha das expectativas. Com sua popularidade nos níveis mais rasos nas pesquisas de opinião, o governo começa a sentir também dificuldades em avançar a agenda do retrocesso no interior do Congresso Nacional. E assim tem início uma grande campanha de propaganda, operação articulada com os grandes meios de comunicação, para tentar reverter o quadro no sentimento da população. Isso vale tanto para vender a ideia de que o pior já passou ou de que o fundo do poço já foi atingido, quanto para responsabilizar os governos anteriores ao golpe por tal desastre.

A cada dia, a cada semana, os formadores de opinião vinculados ao financismo garimpam arduamente alguma notícia alvissareira para tentar comprovar que a bonança está logo ali na esquina. É claro que os novos ocupantes de cargos estratégicos na administração federal também oferecem sua generosa contribuição. Esse movimento ocorre de forma descarada na defesa da necessidade da reforma da previdência, com a manipulação de informações oficiais na justificativa do desmonte do Regime Geral da Previdência Social.

À espera do crescimento.
Mas como os números que atestem o fim da recessão teimam em não comparecer, a última cartada foi a utilização de manobras estatísticas de baixo nível para obter alguma informação que corroborasse a versão da narrativa que o governo busca desesperadamente comprovar. E assim foi o que o IBGE mudou a metodologia na pesquisa de atividade do setor comércio e serviços para oferecer uma boia de salvação ao setor de comunicação do Planalto. Como esse indicador é usado na projeção do Banco Central para uma espécie de prévia do PIB, a intenção casuística é evidente. Mas o movimento foi amplamente denunciado e deve perder seu impacto como desejado no início.

O fato concreto é que a retomada de um ciclo de crescimento sustentado da economia depende basicamente de novos investimentos. E os grandes grupos empresariais não estão tomando decisões dessa natureza. A recessão está tão profunda que o nível de capacidade ociosa das empresas lhes permite assistir o quadro político e econômico sem precisar ampliar o parque produtivo. Por outro lado, a elevada rentabilidade proporcionada historicamente em nossas terras por retornos financeiros estratosféricos lhes assegura maiores ganhos operando nas finanças do que produzindo no setor real. Melhor aguardar do que se precipitar.

A manipulação fica evidente quando se verificam os resultados da pesquisa semanal realizada pelo Banco Centraljunto aos responsáveis pelas decisões do sistema financeiro - a Focus. Ali são levantadas as tais das “expectativas” do mercado. Trata-se de uma verdadeira lengalenga que ausculta apenas os integrantes do petit comité da nata do financismo. Operando na base do “de nós para nós mesmos”, a pesquisa pretende servir como bússola orientadora das ações da autoridade monetária. Um dos quesitos refere-se às perspectivas dos entrevistados quanto ao desempenho futuro da atividade econômica. Vejam abaixo a tendência de evolução das respostas a respeito do crescimento do PIB de 2017 segundo a data da pesquisa:

19/02/16  -  0,50%
18/03/16  -  0,44%
15/04/16  -  0,20%
24/06/16  -  1,00%
16/09/16  -  1,36%
09/12/16  -  0,70%
12/01/17  -  0,50%
12/05/17  -  0,50%

Desde o início do ano passado, o esmagamento midiático de Dilma e a campanha pró impeachment se combinavam com um quadro de desastre anunciado. Em abril, às vésperas da consumação do afastamento, o crescimento do PIB em 2017 não iria ser superior 0,2%. Com a chegada de Temer e a entrega do comando da economia nas mãos dos banqueiros Meirelles e Goldfajn, tudo mudou. Como que magicamente, os mesmos entrevistados pela pesquisa Focus mudaram de opinião e a economia passaria a bombar da noite para o dia. Em junho eles apostavam em um PIB crescendo a 1 % e em setembro chegaram a apostar em 1,36%. Porém, como não há mágica de desejo político que seja superior a qualquer base real da economia, os resultados da gestão Temer fizeram-nos cair na real. As projeções de crescimento em 2017 baixaram para 0,7% e agora estão em 0,5%. Ou seja, no mesmo patamar que apontavam lá atrás em fevereiro de 2016, ainda no início do segundo mandato de Dilma.

Investimentos em compasso de espera.
Um personagem que talvez exemplifique bem o sentimento que acomete os principais tomadores de decisão do mundo do capital é Armínio Fraga. Esse banqueiro, que já teve passagem no governo federal à época de FHC, reflete de forma sincera e articulada essa aparente contradição. Afinal, por que a economia não deslancha se a grande maioria dos principais responsáveis por parcela importante de nosso PIB apoiou a deposição do governo eleito? Em entrevista concedida essa semana, ele reconhece que

"Depois de uma recessão profunda seria de se esperar uma recuperação mais forte, mas isso não acontece quando se tem tanta incerteza".

E como que a reconhecer sua própria culpa na aposta equivocada e precipitada, passa a culpar o fantasma da volta de Lula para justificar a incapacidade de Temer em cumprir sua falsa promessa:
“O problema é que o hoje está sendo influenciado por um amanhã nebuloso. Deveria estar havendo boa recuperação, com apoio da política monetária, que está dando sua contribuição. Mas dificilmente vai ser uma grande festa da recuperação, até as incertezas começarem a desaparecer de forma boa”
 (...)
“Esse Lula hoje está reagindo como uma fera acuada. E aí vem o medo de ele voltar.“

A partir desse depoimento pode-se compreender algumas das razões que atuam para desestimular a retomada dos investimentos. Para além da obsessão visceral de Meirelles em impedir qualquer tipo de protagonismo na iniciativa do setor público nessa direção, Fraga assume que as incertezas permanecem no ar. Ou seja, não bastava tirar Dilma para que a fadinha das expectativas lançasse os superpoderes com sua varinha mágica. Agora, o próximo passo deve ser impedir Lula de sair candidato.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Advogados de Lula expõem abusos da Lava Jato em Berlim, por Flávio Aguiar

berlin2.jpg
Foto: Divulgação
Da Rede Brasil Atual
Em seminário na Universidade Livre de Berlim, Valeska Martins, Geoffrey Robertson e John Watts mostraram, inclusive, que judiciário brasileiro ainda adota métodos herdados do período da Inquisição
por Flávio Aguiar
Abrindo uma ação em que alegam que o ex-presidente Lula é alvo de perseguição judicial no Brasil, ou lawfare, na expressão internacionalmente consagrada, três dos advogados do ex-presidente estiveram em Berlim, nesta segunda-feira (15) – Valeska Teixeira Zanin Martins, que representa Lula no Brasil, Geoffrey Robertson e John Watts, cujo escritório em Londres representa o ex-presidente perante o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos em Genebra.
A visita começou com uma ida ao famoso Reichstag, onde gravaram um registro para os arquivos do Instituto Lula, feito pelo cinegrafista e fotógrafo Felipe Araújo.
Na sequência, foram ao Instituto Latino-Americano, da Universidade Livre de Berlim, onde abriram, em inglês, um seminário de pós-graduação que aborda, entre outros temas, a situação atual no Brasil pós-impeachment. Falaram para uma sala lotada, onde predominavam estudantes, professores e interessados em geral na situação brasileira. A atividade, coordenada pelos professores Sergio Costa e Renata Motta, contou com a participação conjunta do movimento SOS Lula-Berlim e do Fórum Latino-Americano da mesma cidade.
Geoffrey Robertson foi o primeiro a falar. O advogado, nascido na Austrália e que atua no Reino Unido e nas cortes internacionais da Europa – sendo reconhecido como defensor das causas dos direitos humanos e garantias individuais no sistema judiciário internacional –, ressaltou o que considera uma aberração anacrônica do sistema judiciário brasileiro.
Hoje, essa situação anômala não existe mais nas cortes europeias, completamente extinta a partir da década de 1980. Herdada do sistema judicial da Inquisição Ibérica, ela consiste em manter a prática de ser o juiz que instrui e conduz a investigação sobre as atividades de um acusado, para depois ser o mesmo que julga o caso. Segundo ele, isso leva a uma situação em que potencialmente o réu passa a ser condenado de antemão, impedindo que ele seja julgado por um juiz independente.
Agravam o presente caso das ações e investigações movidas contra o ex-presidente o comportamento corporativo das associações da classe jurídica brasileira, apoiando abertamente o juiz Sérgio Moro e as ações da Operação Lava-Jato, mesmo quando irregulares; a participação ativa da mídia hostil ao ex-presidente na criação de um clima de pré-condenação; e o comportamento do juiz e de procuradores, dando declarações nesta mídia e publicando e autografando livros em seu favor.
Destacou ainda a completa ilegalidade da divulgação de gravações obtidas também ilegalmente de conversas privadas de Lula, de sua família e até de seus advogados, dizendo que tudo isto seria impensável nas cortes europeias, e que estes juízes e procuradores já teriam sido afastados do caso, e eventualmente até processados e punidos. Também condenou a passividade judicial diante da utilização dos bonecos gigantescos ou pequenos que representam o ex-presidente como presidiário.
Falou a seguir a advogada Valeska Martins, ressaltando as dificuldades e impasses da Operação Lava-Jato. Declarou que, depois de anos de investigações exaustivas e do arrolamento de quase oito dezenas de testemunhas, sendo 27 de acusação, sequer uma única prova foi obtida contra o ex-presidente.
Ao contrário, todas as testemunhas ouvidas o inocentaram. Provas foram obtidas sim, mas que atestam a sua inocência, como no caso da pseudo-posse de um apartamento no Guarujá, que sempre esteve e está ainda na condição de propriedade da construtora OAS, segundo documentos legais e legalmente obtidos.
Sublinhou que a prática das delações premiadas vem sendo implementada de modo irregular, sem que se exija a apresentação prevista em lei de provas por parte dos delatores. Estes, diante da possibilidade de serem mantidos em longas detenções mesmo antes de serem julgados, terminam por dizer aquilo que procuradores e o juiz querem ouvir a respeito do ex-presidente.
Ressaltou ainda que a decisão do Tribunal Federal de Recursos da Quarta Região (TRF4), com sede em Porto Alegre, a que o juiz Moro está subordinado, garantindo por ampla maioria que a Operação Lava Jato e o juiz podem atuar por cima das leis e da Constituição, abre caminho para a instalação de um estado de exceção no país, coisa que na Alemanha tem um nome de triste memória, Ausnahmezustand, coisa característica do antigo regime nazista.
Valeska se referiu ao risco que a democracia brasileira vem correndo graças a esta mobilização política dos tribunais, apoiada pela mídia mainstream no Brasil. Alertou para o fato de que houve uma decisão dos tribunais superiores, de caráter pessoal, no sentido de que o juiz Moro foi confirmado como apto para julgar a pessoa do ex-presidente, em vez de apenas casos contra ele.
Esta unção do juiz também escancarou as portas para a consideração, por parte daqueles contra quem ele se volta, de que, no Brasil, não há instância de recurso sobre suas decisões, o que aumenta seu poder sobre a prática das delações premiadas, mesmo que dentro da verdadeira licenciosidade com que são obtidas.
Enfim – agora falo eu – o país vive uma suruba (termo empregado por prestigiado senador no atual regime, arqui-investigado por ilegalidades de que é suspeito) jurídica sem precedentes. Nem no Estado Novo, nem na República Velha, nem na ditadura civil-militar pós-1964 houve tanta "liberdade poética" e sinistra na interpretação de leis e prerrogativas constitucionais.
Na República Velha, a questão social era uma questão de polícia; o Estado Novo adotou uma nova Constituição; o mesmo fez a ditadura de 64, além de simplesmente suspender tudo com o Ato Institucional nº 5. Já nos dias de hoje criaram-se completas anomia e anomalia, porque se tem uma Constituição que simplesmente não vale mais, ou vale apenas para alguns, e os esbirros da "nova ordem" se dão direito a tudo, sem prestar contas a ninguém.
Aonde vamos parar com tudo isto, só Deus e o Diabo sabem. Se é que sabem.

Bolsonaro era agressivo e tinha 'excessiva ambição', diz ficha militar

Lincon Zarbietti - 19.jan.2017/O Tempo/Folhapress
POLITICA. BELO HORIZONTE, MG O deputado federal Jair Messias Bolsonaro participa da formatura de soldados da Policia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte FOTO: LINCON ZARBIETTI / O TEMPO / 19.01.2017 *** PARCEIRO FOLHAPRESS - FOTO COM CUSTO EXTRA E CRÉDITOS OBRIGATÓRIOS ***
O deputado Jair Bolsonaro, em formatura de soldados da Policia Militar de Minas, em Belo Horizonte

PUBLICIDADE
Documento sigiloso produzido pelo Exército na década de 1980 mostra que oficiais superiores do hoje presidenciável Jair Bolsonaro (PSC) o avaliaram como dono de uma "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente".
A avaliação foi protocolada sob sigilo, em 1987, no gabinete do então ministro do Exército, Leonidas Pires Gonçalves, durante um processo a que Bolsonaro foi submetido no Conselho de Justificação (espécie de inquérito).
Conforme a Folha divulgou nesta segunda-feira (15), no processo Bolsonaro reconheceu ato de indisciplina e deslealdade por ter divulgado um texto, sem autorização de seus superiores, com pedido de aumento salarial. Ele foi condenado pelos três coronéis que compunham o conselho mas, após um recurso, conseguiu a absolvição no STM (Superior Tribunal Militar).
Segundo a "ficha de informações" produzida em 1983 pela Diretoria de Cadastro e Avaliação do ministério, Bolsonaro, na época tenente com 28 anos de idade, "deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de 'garimpo de ouro'. "Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente".
Em interrogatório a que foi submetido no conselho, Bolsonaro reconheceu ter feito garimpo "na cidade de Saúde, próximo de Jacobina [BA]", durante as férias, na companhia de três tenentes e dois sargentos paraquedistas, dois dos quais "estavam sob seu comando". Bolsonaro disse que não teve lucro e classificou a atividade como "hobby ou higiene mental".
Ouvido pelo conselho, o superior de Bolsonaro, coronel Carlos Alfredo Pellegrino, disse que tentou demovê-lo da ideia do garimpo, mas conheceu "pela primeira vez sua grande aspiração em poder desfrutar das comodidades que uma fortuna pudesse proporcionar".
Ao regressar, Bolsonaro procurou o oficial. Por um lado ele se "retratou", mas por outro teria "confirmado sua ambição de buscar por outros meios a oportunidade de realizar sua aspiração de ser um homem rico".
Em sua decisão final, o Conselho de Justificação concordou com a avaliação da ficha de informações. "A imaturidade é de um profissional que deveria estar dedicado ao seu aprimoramento militar, através do adestramento, leitura e estudos, e não aventurar-se em conseguir riquezas."
Segundo o coronel Pellegrino, Bolsonaro "tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos".
OUTRO LADO
Em entrevista por telefone, Bolsonaro disse: "Vá catar coquinho, Folha de S.Paulo. Vocês estão recebendo de quem para fazer matéria? Vocês estão recebendo de quem para me perseguir?".
Prosseguiu: "Publica essa porra de novo agora sem falar comigo. Eu só falo com vocês gravando", disse o parlamentar. "Continue escrevendo essas porcarias aí na Folha."