segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Absurdo: Presidente do STE, que julga o presidente, viaja com ele a Lisboa
Jornal GGN - Na viagem programada para esta terça-feira (10) à Lisboa, Portugal, para o funeral do ex-presidente do país Mário Soares, Temer incluiu na comitiva oficial do governo Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Assim, Gilmar acompanhará Temer na viagem de agenda internacional do governo. No avião, também estarão presentes o ex-presidente José Sarney e o ministro Eliseu Padilha, além de outros nomes da cúpula peemedebista. A informação é da Folha de S. Paulo.
Enquanto preside o TSE, Temer é alvo de uma ação em andamento contra a chapa de 2014 que pode cassar o seu mandato. Apesar de estar sob a relatoria do corregedor-geral da Justiça, Herman Benjamin, a ação será julgada pela Corte, incluindo Gilmar. 
No último ano, o GGN adiantou os movimentos de Gilmar junto a outros ministros do TSE para alcançar a maioria com o intuito de absolver Temer da cassação ou separar os julgamentos do peemedebista daquele contra Dilma Rousseff.
Em manifestação em novembro de 2016, por exemplo, o ministro induziu que a ex-presidente Dilma poderia ser a responsável pelos recursos ilícitos que supostamente entraram nas contas de Temer. 

domingo, 8 de janeiro de 2017



Mortes nos presídios brasileiros

Jânio de Freitas


As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista não refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos.

Degolados e degoladores, outros assassinados e outros assassinos, que hoje nos horrorizam, até há pouco estavam entre nós. Há estimativas de quantos estão nos presídios, quantos são os prováveis presos de tal ou qual facção –mas quantos entre nós? Os presos integrantes do PCC, do CV e de outras iniciais não são mais do que amostras, não só numérica, de uma força que se desconhece. E, para sorte geral, talvez ainda desconheça a si mesma.

O PCC e o CV expandem-se pelo país. Paulistas do PCC infiltram-se no Rio do CV para dominar os serviços de favelas, como está constatado na Rocinha. Há sinais de presença das duas facções já além-fronteira, na Bolívia, no Paraguai e no Peru. Dão assim uma ideia, a única, da dimensão que têm.

Com incontáveis milhares de jovens disponíveis, na marginalidade e no desemprego, para mais arregimentação. Seu arsenal, soube-se pela perícia de uma ação nas primeiras terras bolivianas, entrou no nível das metralhadoras pesadas, armas de guerra.

O MST lembra, na internet, uma ponderação de Darcy Ribeiro em 1982: "Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários". PCC, CV e outras, por sua dimensão, não são mais aprisionáveis.

As facções cuidam de tráficos e do domínio das áreas chamadas "de baixa renda" (como se salário mínimo e desemprego fossem renda). E deixam por sua conta de cidadã ou cidadão algumas reflexões sobre o que será se, um dia, as facções quiserem mais do que tráfico e domínio de áreas humildes. Afinal, força é poder.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Temer não sabe lidar com as chacinas nos presídios

Eugênio Aragão

Com golpe ou sem golpe, um fato é certo: a crise do sistema penitenciário brasileiro vem de longe e não pode ser debitada exclusivamente à conta desse “governo” que se instalou no poder depois do afastamento maroto da Presidenta legitimamente eleita, Dilma Vana Rousseff. Mas outro fato também é inegável: o tal “governo” não tem minimamente condições de lidar com esse problema. A razão é simples: a crise não se resolve “no pau”, como querem os brucutus sob o comando de Alexandre Moraes, e nem com fiscalização dos administradores penitenciários por juízes, com poderes pretensamente delegados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), como quer sua presidente, Ministra Carmen Lúcia.
Isso é bem Brasil pós-golpe. Quando surge uma crise que causa comoção pública, a solução proposta é simples: mais “pau”, seja na forma de violência bruta ou na forma de mais poder de polícia. Políticas públicas, nem pensar! Desqualificam-nas como “coisa de petista gastador e incompetente”. Também, pudera! Os órgãos que poderiam formular essas políticas ou foram liquidados, ou foram desempoderados, com a alocação dos seus recursos para outras áreas. Menos Estado só pode levar à incapacidade da gestão pública para prevenir tragédias como as que tiveram lugar no Amazonas e, agora, em Roraima.
Nesse contexto, não pode deixar de ser lembrada a brilhante ideia do Sr. Alexandre Moraes, de desviar os recursos do fundo penitenciário para o Plano Nacional de Segurança Pública, desafiando decisão do Supremo Tribunal Federal de agosto de 2015, que determinou a aplicação urgente desses recursos, para pôr cobro ao “estado de inconstitucionalidade” vigente nos presídios. Esse propósito foi, por sinal, reforçado em 26 de abril de 2016, por meio de acordo de cooperação técnica entre o CNJ e o Ministério da Justiça, assinado, respectivamente pelo Presidente do CNJ de então, Ministro Ricardo Lewandowski, e o Ministro da Justiça à época, que era este que ora lhes escreve. Nos termos do acordo, ainda vigente, compete ao CNJ avalizar qualquer aplicação dos recursos do fundo penitenciário, por via de nota técnica. Não há notícia de que o colegiado de controle tenha se manifestado sobre o pretendido desvio de finalidade. Mas isso é só um detalhe, como tudo no “governo” que se instalou no poder. E talvez a atual Presidente do CNJ nem esteja a par desse detalhe!
Mas, vamos lá. A reação governamental nestes dois episódios trágicos do descalabro administrativo em nosso sistema penitenciário foi vergonhosa. O Sr. Alexandre Moraes logo achou um meio de afastar de si o cálice de vinho tinto de sangue. Culpou, primeiro, o governo do Amazonas pelo “acidente” (o Sr. Michel Temer insistiu muito no uso dessa palavra) em Manaus e, depois, constatando que, ali, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) é administrado pela obscura empresa “Umanizzare”, preferiu colocar a tragédia na conta da iniciativa privada. Claro que a “Umanizzare” reagiu prontamente, advertindo, em nota pública, que a segurança do complexo não era sua atribuição contratual, que se restringiria, grosso modo, ao “catering” diário. A segurança, disse a empresa, era de competência do executivo estadual. O governador do Amazonas, por sua vez, adotou discurso cínico. Como a sacudir os ombros, declarou que “não tinha nenhum santo entre os presos mortos”.
No caso de Roraima, o trato mais ou menos burocrático foi o mesmo. Curiosamente não se ouviu um pio da Secretaria Especial de Direitos Humanos, tão cúpida em defender o congelamento de recursos orçamentários para investimentos sociais para os próximos vinte anos diante da Comissão Americana de Direitos Humanos. Houve referências, pelo Ministério da Justiça, a recursos que seriam transferidos para os estados, destinados à construção de novas penitenciárias, como se isso resolvesse a situação de premência experimentada pelo sistema. A governadora declarou que havia solicitado, em novembro passado, o apoio do governo federal e o uso da Força Nacional em Roraima, em caráter de urgência, para fazer face aos sérios riscos que vinha enfrentando na gestão do sistema penitenciário local. O Sr. Alexandre Moraes, mais uma vez, tentou tirar o corpo fora e afirmou que nada havia sido solicitado para o sistema penitenciário e, sim, tão-somente, para a segurança pública. Que vexame! A governadora foi obrigada a tornar pública sua missiva ao Sr. Alexandre Moraes, bem como sua resposta negativa, dada por escrito (Aviso n.º 1636/2016-MJ). Mentira tem pernas curtas e o nariz de Pinóquio cairia bem ao “ministro da [in]justiça”.
É deplorável a atitude dos que insistem em ser nossos governantes, mesmo sem voto e apoio da sociedade. E não causa menos náuseas o comentário cínico do governador amazonense. Empurrar a responsabilidade para outros e sequer ser capaz de um ato de humanidade para com os entes queridos dos cerca de noventa brasileiros assassinados em Manaus e Roraima às vistas grossas do poder constituído é de uma covardia sem igual. É verdadeira atitude de “hit and run”, coisa de moleque que bate no carro alheio e sai fugindo. A opinião pública espera até agora um gesto de humildade do “governo”, reconhecendo sua falta e propondo a indenização dos familiares. Ou, será que vão deixar por isso mesmo, que nem o moleque que bate no carro alheio? Será que os familiares vão ter de invocar a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que nem no caso de Urso Branco, de impacto bem menor? Deve ser lembrado ao “governo” – e a Sra. Flávia Piovesan, que aceitou decorar a Secretaria Especial de Direitos Humanos, bem como o embaixador de trinta e um anos de carreira, cheia de méritos próprios, Silvio Albuquerque, sabem muito bem disso – que, já agora, não há sequer necessidade de esgotamento dos recursos domésticos para provocar a Comissão em Washington. A repetição de tais tragédias de mesmo formato e dinâmica configura uma prática administrativa abusiva por parte do Brasil, que indica serem as vias judiciais e administrativas internas ineficazes (art. 46 da Convenção Americana de Direitos Humanos).
Aliás, convém lembrar ao Sr. Alexandre Moraes que, do ponto de vista da responsabilidade internacional do Estado brasileiro, é absolutamente irrelevante se a violação a direitos consagrados consuetudinariamente ou em tratados tenha partido do governo central ou de agentes de governos periféricos, como estados e municípios. Para o efeito de responsabilização, o Estado é um monólito e sua organização interna, unitária ou federativa, não interessa ao direito internacional. Aqui a Convenção Americana contém até uma cláusula expressa: o art. 28, em seu parágrafo (2), estabelece que “[n]o tocante às disposições relativas às matérias que correspondem à competência das entidades componentes da federação, o governo nacional deve tomar imediatamente as medidas pertinentes, em conformidade com sua constituição e suas leis, a fim de que as autoridades competentes das referidas entidades possam adotar as disposições cabíveis para o cumprimento desta Convenção”. Em outras palavras: vire-se o governo federal para fazer os estados cumprirem com as obrigações internacionais assumidas pela diplomacia nacional! Transferir a culpa ao governo estadual pode até aliviar a consciência do chefe do grupo que se assenhorou do poder em Brasília, mas é tapar o sol com a peneira, pois nada resolve, do ponto de vista jurídico.
Quanto ao cinismo do governador do Amazonas, sequer mereceria comentários. O Sr. José Melo adotou a linguagem do esquadrão da morte. Para ele, bandido bom é bandido morto. Um Estado que faz da execução sumária de indefesos sob sua custódia um instrumento de política de contenção de crimes é mais criminoso do que aqueles que pretende punir, pois covardemente usa seu monopólio de violência contra quem não pode ladeá-lo. Não interessa se um cidadão cometeu crimes ou não: sua dignidade não é menor por isso e, se ele estiver em mãos do Estado, este é responsável por sua incolumidade. Ser ou não ser “santo” não é critério para medir a proteção a todas e todos devida. E José Melo, cassado em janeiro de 2016 pelo TRE-AM por denúncia de compra de votos nas eleições de 2014 e mantido temporariamente pelo mesmo tribunal dois meses depois, também não parece ter a santidade exigida para jogar a primeira pedra nos presos assassinados sob a custódia do Estado, por ele representado no Amazonas.
Incrível é que, em pleno século XXI, depois de treze anos de democracia inclusiva, coisas tão óbvias ainda tenham de ser ditas. Como regredimos! Como nos embrutecemos! Não que motins graves não tenham acontecido antes e mesmo durante os governos democráticos do passado. Mas a resposta foi outra. Ninguém tentou se safar. A responsabilidade foi prontamente assumida. Na Corte Interamericana se produziu um acordo que manteve a Penitenciária de Urso Branco sob observação por alguns anos. O Brasil se tornou parte do Protocolo Opcional à Convenção contra a Tortura, criou seu mecanismo doméstico de implementação e se submeteu à Subcomissão de Prevenção da Tortura. Enfim, os governos democráticos tinham consciência da dimensão do problema e se esforçaram no alinhamento com padrões internacionais de garantia de direitos.
Agora não. É um empurra-empurra de gentinha medrosa, comprovando a incapacidade desse “governo” de lidar com crises. Deveriam reconhecer que destroçaram a máquina administrativa que poderia dar respostas. Falam em construir mais prisões, o que soa como discurso infantil. Prisões não se constroem de um dia para outro e, portanto, não são uma resposta adequada à urgência vivida. Prisões são caras para serem mantidas e o governo federal pode até repassar recursos aos estados para a construção, mas se não os passar, também, para a gestão, é como se não fizesse nada. Há, no país, prisões novinhas, prontas e vazias por falta de dinheiro para colocá-las em funcionamento. O que se verifica é que, muito mais importante que novas unidades, é vital saber gerenciar as existentes. Nesse tocante estamos na Idade da Pedra.
Uma penitenciária não pode ser um depósito de gente pobre, feia e esquecida; não pode ser um tanque de decantação da merda social. O dever do Estado é prevenir novos crimes e isso só é possível com tratamento adequado aos que estão sendo investigados ou que foram condenados por ter sido demonstrada, “além de qualquer dúvida razoável”, a prática de crimes. Por tratamento adequado deve-se entender recuperar chances perdidas de reconhecer nesses indivíduos com dívidas na justiça cidadãos dignos, ensinando-lhes um ofício, dando-lhes educação mínima, oferecendo-lhes condições de curarem suas feridas na alma e, sobretudo, dar-lhes, depois, uma nova chance. Sem políticas públicas de inclusão social esses resultados nunca serão atingidos.
A crise aguda do sistema penitenciário deveria ser uma oportunidade para pensarmos sobre o modelo de sociedade que queremos. Facções, bandos e quadrilhas são instrumentos de um mercado informal paralelo rentável de drogas, manejados por aqueles que não têm chance no mercado formal e, por isso, ou se envolvem no crime, ou mantêm-se na sua miséria de sempre, com parquíssimas e penosas perspectivas de melhora. Claro que em todo grupo social existem, também, os conformados com sua condição de miseráveis e, portanto, sem vontade de resistir; mas existem, igualmente, os inconformados, cheios de justos ressentimentos e dispostos a “chutar o pau da barraca”. Torná-los conformados “na porrada” não resolve o problema de que padecem e sempre exporá a sociedade a rompantes violentos de uns e outros, cada vez mais numerosos, que não aceitam sua condição. Faremos como as avestruzes? Enterraremos nossas cabeças na terra e ignoraremos esse “lixo humano”? Para não sermos incomodados, preferiremos nos enclausurar entre muros altos e fios de alta tensão? O problema é que a maioria dos brasileiros não pode se dar esse luxo, nem sequer imaginar circular com seus cheirosos filhinhos em carros blindados ou helicópteros sobre os centros urbanos. Precisamos que todos vivam em segurança e com qualidade, senão os verdadeiramente encarcerados serão os que moram fora das penitenciárias e estas serão administradas pelos que vivem dentro delas, correndo soltos e organizados em facções, bandos e quadrilhas. Ninguém conseguirá mudar esse quadro se não olhar de frente para ele.
O fundo penitenciário tem recursos para iniciar a virada. Mas não confundamos política penitenciária com política de segurança pública, porque aquela é muito mais ampla do que esta. Precisamos de gestores penitenciários, de arquitetura penitenciária que tornem realidade o que se impõe na Lei de Execuções Penais, uma das mais progressistas no direito comparado, mas relegada à condição de ser “só lei”. Isso não se faz com juízes do CNJ criando mais uma instância de controle dos administradores, até porque inexiste norma que permita ao colegiado intromissão na atividade do Poder Executivo ou intervenção da jurisdição dos juízes das Varas de Execuções Penais. Não podemos usar a crise para dela “tirar uma casquinha” com palpites soltos e improvisados, a empoderarem mais ainda esse ou aquele ator do serviço público.
A casta judicial e a do ministério público são os maiores responsáveis, com seu cego punitivismo, pela tragédia que já há muito se anunciava: como as prisões não lhes dizem respeito, seguem entupindo-as com o “lixo humano” até o sistema enfartar. A saída da crise pressupõe, pois, mudança de atitude dos órgãos empenhados na persecução e jurisdição penais, carentes de uma política criminal que os faça priorizar alguns ilícitos sobre outros e não fingir que obedecem cegamente ao princípio da obrigatoriedade da ação penal, sem distinção. Precisam ter consciência de que não é mais possível tolerar seu descaso diante da proporção de 80% dos presos sem condenação, no aguardo da justiça andar. Para dar conta de sua carga, não devem se refugiar na desculpa de que estão sobrecarregados. Juízes e membros do ministério público, no Brasil, mui bem remunerados, não têm horário de expediente controlado e nem sempre se ocupam oito horas diárias com seus processos. Que se mude seu método de remuneração e se pague por metas de produtividade, para vermos se os processos não andariam mais rápidos! Não se duvide de que isso seria capaz de mudar a cultura de trabalho e adequaria os agentes a orientações de instâncias superiores, até como meio de cultivar a economia processual. Deixariam de ser luminares, para efetivamente serem parte de uma engrenagem articulada que oferecesse aos cidadãos segurança jurídica.
Salta, porém, aos olhos que isso tudo só um governo legitimado pelo voto pode fazer, pois o grupo que se assenhorou do poder não tem tutano nem estofo para desafiar, com autoridade, o ambiente de sinecura[EdA1]  no judiciário. Até porque muitos deles não são melhores do que os assassinados, esperando, contudo, à diferença deles, em liberdade e aboletados em cargos públicos de alto escalão, que a justiça, em seu passo de cágado, os chame para pagar por seus pecados. Ficarão, até serem removidos de sua situação de ilegitimidade, a arrumar desculpas para seu fracasso, usando a pura negação da responsabilidade, a sugestão aleatória de medidas decorativas, o preconceito social contra os encarcerados ou o cinismo bandido de quem acha que os mortos não são santos.



* Subprocurador-Geral da República e Professor Adjunto da Universidade de Brasília, foi Ministro de Estado da Justiça no governo legítimo de Dilma Vana Rousseff.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

CDHM anuncia pedido de diligência extraordinária durante o recesso a AM e RR para cobrar providências aos massacres
da assessoria de imprensa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias
A divulgação pela imprensa de uma carta atribuída ao “Alto Conselho do Primeiro Comando da Capital, para região Norte”, anunciando retaliações de facções criminosas aliadas ao massacre de Manaus, e a confirmação de novo massacre com ao menos 33 mortes na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, a maior de Roraima, demonstram estar em curso algo muito mais grave que “acidentes pavorosos” – a infelicíssima expressão do presidente Michel Temer, ao se referir esta semana – depois de constrangedor silêncio – aos trágicos episódios de chacina contra presos no sistema penitenciário amazonense.
O descontrole do Estado brasileiro sobre um sistema penitenciário gerido em conjunto, por ação ou omissão, com o crime organizado, faz novas vítimas em Roraima e ameaça espalhar-se como rastilho de pólvora pelo país, sem uma efetiva coordenação de esforços por parte do governo federal e das instituições do Poder Judiciário – em particular o CNJ, o STF e a PGR.
Entregues a uma forma de gestão cada vez mais tênue por parte do Estado, presos e presas ficam à mercê do crescimento de organizações criminosas que substituem governos e instituições na atenção a seus direitos e, em troca, sob a tutela dessas organizações, ficam mantidos a serviço do tráfico ou de outras formas de atividade criminosa.
A União não pode simplesmente se eximir, como fez o presidente da República, da responsabilidade de liderar a busca de paz no sistema penitenciário e construção de um novo modelo.
Informações sobre os fatos de Manaus eram de conhecimento do Ministério da Justiça, tanto por investigações sobre o crime organizado da Polícia Federal quanto pelo relatório de peritos do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT).
De acordo com a Conectas Direitos Humanos, “um relatório produzido por peritos do Subcomitê da ONU para a Prevenção da Tortura (SPT, na sigla em inglês) com recomendações ao sistema prisional do Amazonas, onde ocorreu a morte de ao menos 56 pessoas, está sendo mantido sob sigilo pelo governo brasileiro.
Os especialistas estiveram no Brasil entre 19 e 30 de outubro de 2015 e inspecionaram presídios do Distrito Federal, Pernambuco, Rio de Janeiro e Amazonas.
A partir das visitas in loco, o Subcomitê produziu um relatório no qual trata das deficiências das unidades prisionais visitadas e aponta recomendações para a superação do quadro de violações.
De acordo com o site oficial do SPT, o governo brasileiro está em posse do documento desde 24 de novembro de 2016. O Brasil, porém, tem a prerrogativa de decidir sobre a divulgação ou não do documento”.
Assim, nos somamos à sociedade civil para que o Ministério da Justiça divulgue e cumpra as recomendações da ONU sobre o COMPAJ de Manaus e o sistema penitenciário nacional.
Informamos que solicitaremos formalmente, por meio de requerimento, que o Governo Federal nos relate as ações que tomou diante dos dados do relatório.
Um novo modelo penitenciário é urgente e necessário, e para tanto será necessário um entendimento – mesmo em ambiente institucional conflagrado pelo golpe em curso no país – entre os três Poderes da República para a travessia deste modelo falido e ilegal para um novo modelo, humanizado e de acordo com a Lei de Execuções Penais.
Iniciativas da CDHM
A CDHM reitera todas as propostas apresentadas na última terça-feira, em particular as que chamam à responsabilidade o Poder Judiciário e as Defensorias Públicas pela realização de imediatos mutirões de verificação da situação do imenso número de presos e presas em situação provisória que superlota o sistema prisional nos estados e pela liderança da Agenda Nacional de Desencarceramento, para o adequado cumprimento da Lei de Execuções Penais.
Um choque de legalidade necessário num sistema corrupto, infrator e ineficaz na educação e reinserção social de presos e presas.
Estamos solicitando em caráter excepcional ao Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), autorização e apoio logístico para que a CDHM possa, durante o recesso parlamentar, dada a complexidade e gravidade dos fatos, realizar diligências e tomar providências para enfrentar essa onda de violência que ameaça o sistema penitenciário.
Bem sabemos, por trágicas ocorrências anteriores, que a violência dentro do sistema transborda, em algum momento, para o conjunto da sociedade que observa extra-muros, temerosa, o que acontece nessas unidades prisionais.
Brasília, 06 de janeiro de 2017
Deputado Padre João
Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados
Parece que Temer quer o Brasil socialmente retrógrado, diz coluna do NYT
"Deve ser motivo de preocupação que o senhor Temer possa realizar tantas reformas, considerando que a maioria delas vai contra a agenda da pessoa que - ao contrário dele - realmente ganhou a eleição presidencial mais recente"
Jornal GGN - "O fim do mundo já chegou para o Brasil", publicou colunista brasileira no New York Times, nesta quinta-feira (05). A referência é direta ao projeto de emenda que congela por 20 anos os gastos públicos, interferindo na saúde, educação e outros investimentos sociais. 
"O governo justificou a medida com base no fato de que o Brasil enfrenta graves deficiências orçamentárias. Mas as pessoas não estão aderindo à ideia. Uma pesquisa realizada no mês passado descobriu que apenas 24% da população apoia a emenda. Os brasileiros saíram às ruas para expressar sua desaprovação. Mas estavam, como sempre, diante de gases lacrimogêneo e tropas policiais montadas. Alunos do ensino médio ocuparam até 1.000 escolas em protesto, muitos no estado do Paraná, no sul do país", escreveu Vanessa Barbara para o jornal norte-americano.
Por outro lado, apesar das desaprovações, alertou Vanessa, o governo de Michel Temer não recua de suas medidas. 
"A emenda do 'fim do mundo' é apenas uma das muitas medidas neoliberais que estão sendo adotadas por Michel Temer, o presidente. Deve ser motivo de preocupação que o senhor Temer possa realizar tantas reformas, especialmente considerando que a maioria delas, incluindo o limite do orçamento, vai contra a agenda da pessoa que - ao contrário dele - realmente ganhou a eleição presidencial mais recente."
A jornalista lembra a motivação do impeachment de Dilma Rousseff, em agosto do ano passado, foi a alegação de que a ex-presidente manipulou o Orçamento da União. E que assim que assumir o posto, Temer anunciou a série de projetos neoliberais e não vai parar, "dizendo que está aproveitando sua impopularidade para colocar à mesa as medidas impopulares".
A colunista brasileira do NYT diz que apenas o teto dos gastos públicos "prejudicará os cidadãos mais pobres e vulneráveis ​​do Brasil por décadas". E ressalta que a tese não é apenas dos partidos de esquerda do Brasil, mas também da ONU, mencionando o parecer recente do relator especial das Nações Unidas, Philip Alston, apontando que a PEC irá "bloquear de forma inadequada e rapidamente os gastos em saúde, educação e segurança social, colocando uma geração inteira sob risco de rebaixamento dos padrões de proteção e bem estar sociais".
"Alston acrescentou que a lei colocaria o Brasil em uma 'categoria socialmente retrógrada própria', o que parece exatamente onde o Sr. Temer e seus aliados querem que estejamos", continua a jornalista.
Além das severas críticas à PEC do teto, Vanessa também mencionou a Reforma da Previdência de Temer. "Há boas razões para o Brasil não ter aprovado leis como essa antes. Embora a expectativa de vida média no Brasil seja de 74, somos um dos países mais desiguais do mundo. Por exemplo, em 37 por cento dos bairros da cidade de São Paulo, as pessoas têm uma expectativa de vida inferior a 65 anos. É ainda mais curto para os pobres rurais", argumentou a brasileira aos norte-americanos.
Outras dos projetos de Michel Temer ainda nem podem ser justificados pela recuperação econômica, apontou a colunista. Mencionou a proposta de lei trabalhista que permite que os acordos entre empregadores e sindicatos prevaleçam sobre as próprias leis trabalhistas, além do aumento do limite de horas de trabalho e a redução da regulamentação dos trabalhadores temporários. 
"A comunidade empresarial elogiou o plano. Os sindicatos estão enfurecidos", ressaltou. Por fim, Vanessa citou a otra prioridade da gestão Temer no Brasil, que são os projetos de terceirização. 
Ao concluir, Vanessa Barbara diz que, se por um lado, a alta impopularidade de Michel Temer é visível entre a grande maioria da população brasileira, por outro, o novo governo recebe o apoio total da indústria e do empresariado. Por isso, corrigindo o título dado à publicação, destacou: "Para alguns brasileiros, pelo menos, o fim do mundo é o início de uma oportunidade de ouro."

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Benvindo Siqueira

Nosso cômico de plantão


A propósito do post "Cortar gastos é cortar cabeças", o brilhante advogado Antônio Carlos de Almeida Castro​, o Kakay, enviou no Whatsapp do C Af:
Vão querer colocar a responsabilidade na guerra entre facções, o Estado, tanto o do Amazonas quanto o Federal, vão se declarar vítimas de grupos criminosos organizados. Ninguém assumirá a responsabilidade pela bestialidade que impera no sistema prisional.
Nosso Judiciário, nosso Supremo já afastou a presunção de inocência e determina a prisão antes do trânsito em julgado. Que se danem os pretos, pobres, desassistidos, que entulham as cadeias brasileiras.
É necessário, numa visão tacanha e desumana, de parte do Judiciário, "dar uma satisfação à sociedade", e para responder a parte da mídia que quer a prisão de 20 empresários da Lava Jato, mandam para a prisão milhares de pessoas sem culpa formada.
Quantos presos provisórios estão dentre estes mortos? Mas nenhum será destaque e manchete individual nos telejornais, pois são presos sem rosto, sem nome... Mas, suas famílias existem e merecem nosso respeito.
Que a sociedade volte os olhos para o massacre diário no sistema prisional brasileiro e que o Judiciário deixe de ser cúmplice deste massacre. A prisão antecipada é em boa parte responsável por esta barbárie. A vulgarização da prisão preventiva só alimenta este estado de coisa inconstitucional. "Arre, estou farto de semideuses, onde há gente no mundo"