segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia seguinte, por João Feres Júnior
Ontem durante a votação do impeachment na Câmara dos Deputados ouvi uma analogia interessante: ver aqueles deputados todos votarem de tão perto é como visitar a cozinha de um restaurante; algo não recomendável. Há uma sabedoria profunda aí. Qualquer pessoa com alguns neurônios e um senso moral ficou nauseada com o comportamento da imensa maioria dos representantes do povo. A contração “pelo”, e sua versão feminina, foram de longe as palavras mais usadas em toda interminável sessão. Esse nosso mesmo observador, o ser moral dotado de algum cérebro, esperaria que os nobres deputados dessem razões públicas para seu voto que fossem condizentes com a natureza do que estava sendo apreciado: uma acusação de crime de responsabilidade da presidente da república. Qual o que! Os “pelos e pelas” não significavam “em razão de”, mas simplesmente homenagens prestadas por meio do voto à família, a deus e aos eleitores e regiões da base do deputado. E quando davam razões, elas muito raramente tinham a ver com a natureza da acusação, um crime de responsabilidade relativo à gestão da fazendo pública, mas sim com aspectos do desempenho do poder executivo no que toca a economia ou com a corrupção, matéria estranha à acusação.
Mas a repulsa do que nosso observador fictício sentiu é em parte fruto de sua ingenuidade. Na verdade, cozinhas de restaurantes não são feitas para serem visitadas. Da mesma forma, a Câmara dos Deputados não é um lugar em que cada membro tem igual direito a voz, como vimos ontem à noite. O que causou tanta repulsa é a exposição pública do chamado baixo clero, que são as massas de manobra de cada partido. A Câmara é um espaço muito hierarquizado. As lideranças partidárias decidem quase tudo e o baixo clero geralmente segue as orientações dos líderes. São deputados que têm na manutenção da relação com sua base eleitoral regional seu principal objetivo. Não há muito lugar para grandes temas nacionais, questões morais ou constitucionais profundas. Esses deputados se movem pelo toma-lá-da-cá que é a lógica de suas carreiras políticas.
Isso poderia ser diferente? Poderia. Se os partidos tivessem mais força, mais mecanismos de punição e prêmio, esses deputados cobrariam um preço menor por sua disciplina. Fim das coligações eleitorais para voto proporcional, cláusula de barreira, reforma dos critérios para criação de novos partidos, todos essas medidas contribuiriam para diminuir o “custo” do baixo clero para a política nacional, aumentando assim a disciplina partidária.
Nada disso, contudo, seria garantia de que evitaríamos o que vimos ontem. Isso porque ainda que em parte produto de problemas de desenho institucional, como discutido acima, o espetáculo de ontem é também consequência de erros fragorosos cometidos pelos governos do PT. E eu gostaria aqui de isentar em parte o próprio Partido dos Trabalhadores, pois ser governo para um partido com forte base em movimentos sociais como o PT é verdadeiramente trágico: o governo se constitui em polo independente e desagregador da estrutura partidária, com poder imenso se comparado ao próprio partido. Daí que o partido decide muito pouco, tem poder exíguo perante o próprio governo.  Então os responsáveis pelos erros são os próprios governos, Lula e Dilma.
Vou enumerar aqui somente dois pontos fundamentais: a mídia e o tratamento das corporações estatais. Há outros que reservarei para futuros artigos. Após ganhar uma eleição sobre forte campanha midiática de exploração do escândalo do Mensalão, Lula se convenceu de que “a grande mídia não ganha mais eleição nesse país”. As vitórias subsequentes, em 2010 e 2014, sempre sob fogo intenso das grandes empresas de jornalismo, serviram para confirmar essa tese. Resultado: fizeram quase nada para resgatar a comunicação pública de nossa república das mãos dos barões reacionários que a monopolizam há tantas décadas. Organizaram a EBC, recriaram uma TV pública, mas tudo de maneira muito acanhada. É patético assistir aos jornalistas destas mídias públicas tentarem fazer o papel de isentos e neutros, na esperança de suprirem a função que seus colegas das empresas privadas já abandonaram há muito tempo. A TV Brasil parece ter acordado para a necessidade se sair do muro da suposta neutralidade jornalística e comunicar conteúdos que os outros canais simplesmente ignoram. Só que fez isso aos 49 minutos do segundo tempo, quando o placar já estava 7 x 1, contra.
A despeito de seu trânsito entre grupos empresariais de peso no país e no exterior, Lula e Dilma não articularam a criação de empresas de mídia que constituíssem alternativas a isso que está aí. José Dirceu foi um que se enveredou por esse caminho. Mas sua demonização por parte da grande mídia parece ter detido outros líderes: acovardaram-se. Resultado: um clima de opinião totalmente adverso ao governo e ao PT, clima esse ao qual todos os deputados federais são altamente sensíveis. Se há um tipo de gente que fica colado no noticiário, este é o político profissional.
O segundo ponto são a sequência de erros na escolha, de competência da Presidência da República, dos cabeças de grandes corporações estatais como o Ministério Público, Polícia Federal e ministros do Supremo. Lula até hoje se orgulha em público de respeitar as corporações e escolher sempre o primeiro da lista. Dilma seguiu o mesmo caminho. Ao fazerem isso abriram mão do único canal que uma corporação poderosa como o Ministério Público teria de prestar contas ao voto popular. Criaram um monstro que os está engolindo. A coisa chegou a tamanho absurdo que até os advogados públicos federais se organizaram para tentar forçar a presidente a escolher o substituto de Luís Inácio Adams para a Advocacia Geral da União de uma lista tríplice elaborada por eles mesmos. A Polícia Federal também se autonomizou como corporação sob o beneplácito do ex-Ministro da Justiça, cargo indicado por Dilma. Escapou da hierarquia que a submete ao representante da soberania popular para ser capturada por interesses políticos partidários que perderam a eleição, trazendo o conflito político para dentro do Estado. 
Por fim, é irônico ver Lula falar, mui corretamente, que o Supremo se acovardou perante os desmandos de Moro, pois a maior parte dos ministros hoje na casa foram escolhidos por ele e por sua sucessora. Não importa saber agora qual o cálculo político que levou a escolha de cada um, mas é inegável constatar que o resultado final é pífio. Moveram somente uma palha contra Moro, que lhes respondeu com um pedido irônico de desculpas, e permitiram que Eduardo Cunha comandasse até o final o espetáculo dantesco a cujo ápice assistimos ontem à noite. Não conseguem defender o estado de direito perante um juiz de primeira instância. Não conseguem defender a república de seu inimigo público mais notório.
Em suma, o povo brasileiro poderia ter sido poupado daquele passeio desagradável pela cozinha do restaurante da democracia. Esse desfecho, ainda que provisório, está longe de ter sido uma consequência necessária da competição política. Ele é fato produzido pela combinação de erros seguidos de avaliação, como é o caso da mídia, e de ações desastradas guiadas por princípios absurdamente equivocados, como o da autonomia das corporações estatais. Agora é esperar que o trauma passe e que o povo não perca de vez o apetite ou vá comer em outro restaurante. 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Por Luis Fernando Verissimo
Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real
Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.
Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.
— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.
— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.
— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas...
— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?
— Eu queria falar com a senhora sobre o Brasil de 2016.
— Brasil, Brasil...
— PT. Lula. Impeachment.
— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo...
— O que significou tudo aquilo?
— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.
— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?
— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.
Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivos e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.
Eu não queria ouvir a resposta.
Luis Fernando Verissimo é escritor

Por Slavoj Žižek.


A única coisa verdadeiramente surpreendente do episódio dos “Panama Papers” é que sua revelação não trouxe nada de surpreendente: não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender? Mas, é claro, uma coisa é saber de forma geral, outra é ter dados concretos do que se passava. É um pouco como descobrir que seu parceiro sexual está pulando a cerca – pode-se até aceitar o conhecimento abstrato do caso, mas a dor surge quando descobrimos os detalhes picantes, quando vemos as fotos do que estavam fazendo… então agora, com os Panama Papers, nos revelaram algumas das fotos obscenas da pornografia financeira, e não podemos mais fingir que não sabemos.
Em 1843, o jovem Marx já alegava que o ancien regime alemão “supõe apenas que acredita em si e pede a todo mundo para compartilhar a sua ilusão.” (Crítica da filosofia do direito de Hegel, p.148) Em uma situação como essa, envergonhar quem está no poder se torna uma arma – ou, nas palavras de Marx: “A pressão deve ainda tornar-se mais premente pelo fato de se despertar a consciência dela e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo fato de ser trazida à luz pública”. (p.148). E essa é exatamente nossa situação hoje: estamos diante do desavergonhado cinismo da atual ordem global cujos agentes apenas supõem que acreditam nas suas próprias ideias de democracia, direitos humanos, etc., e através de ações como as do WikiLeaks e revelações como os Panama Papers, a vergonha (nossa vergonha de ter tolerado tal opressão sobre nós) torna-se ainda mais vergonhosa ao ser publicizada.
Uma breve passada de olhos pelos documentos dos Panama Papers revela dois elementos sobressalientes, um positivo e outro negativo. O positivo é a amplamente abarcadora solidariedade dos participantes: no mundo das sombras do capital global, todos são irmãos, o mundo desenvolvido ocidental está lá, incluindo os incorruptíveis escandinavos, de mãos dadas com Putin e o Presidente Chinês Xi, Irã e a Coreia do Norte também estão lá, mulçumanos e judeus trocando olhares amigáveis – é um verdadeiro reino de multiculturalismo onde todos são iguais e todos são diferentes. O negativo: a dura ausência dos EUA, que dá certo respaldo às alegações Russas e Chinesas de que haviam interesses políticos particulares envolvidos na investigação.
Então, o que fazer com todos esses dados? Há uma piada clássica sobre um marido que retorna à sua casa mais cedo do que o esperado e se depara com a esposa na cama com outro homem. Surpresa, a mulher pergunta: “O que aconteceu? Você me disse que estaria em casa só daqui a três horas!” O marido explode de volta: “Fala sério, o que você está fazendo na cama com esse cara?!” A esposa responde calmamente: “Não mude de assunto, primeiro responda minha pergunta.” Será que algo semelhante não está acontecendo com as reações aos Panama Papers? A primeira (e hegemônica) é a explosão de raiva moralista: “Horrível, quanta ganância e desonestidade há nas pessoas, onde estão os valores básicos da nossa sociedade?” O que devemos fazer é mudar o tópico imediatamente da moralidade ao nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e empresários sempre foram “gananciosos”, então o que acontece com nosso sistema econômico e judicial que os permitiu levar a cabo sua ganância neste nível.
Desde o colapso financeiro de 2008, figuras públicas do Papa para baixo nos bombardeiam com injunções para combatermos a cultura da ganância e do consumo excessivos – esse deplorável espetáculo de moralização barata tem a forma de uma clássica operação ideológica: a compulsão de expansão inscrita no próprio sistema é traduzida como pecado individual, em propensão psicológica pessoal, ou, nas palavras de um dos teólogos próximos ao Papa: “A atual crise não é uma crise do capitalismo, mas uma crise de moralidade”. Até alguns setores da esquerda têm seguido essa linha. Não falta “anti-capitalismo” hoje: os protestos Occupy! explodiram alguns anos atrás, e estamos ainda testemunhando uma profusão de críticas aos horrores do capitalismo: livros, investigações jornalísticas mais aprofundadas e matérias televisivas sobre corporações poluindo descaradamente nosso meio-ambiente, sobre banqueiros corruptos que continuam a receber gratificações generosos enquanto seus bancos precisam ser salvos por dinheiro público, de casos de trabalho escravo infantil, e por aí vai…
Há, no entanto, um porém a essa profusão de críticas: o que, via de regra, jamais é questionado nessas críticas, por mais forte que possa parecer, é o próprio quadro liberal-democrático de combater esses excessos. O objetivo (explícito ou implícito) é o de democratizar o capitalismo, de estender o controle democrático à economia através da pressão da mídia pública, de inquisições parlamentares, leis mais duras, investigações policiais honestas… mas o sistema como tal em sua totalidade não é questionado, e seu quadro institucional jurídico permanece a vaca sagrada que mesmo as formas mais radicais de “anti-capitalismo ético” como o movimento Occupy!, o Fórum de Porto Alegre, o movimento de Seattle, não tocam.
O erro a ser evitado aqui é melhor exemplificado por uma anedota (apócrifa, talvez) do economista John Galbraith, um keynesiano de esquerda: antes de uma viagem à URSS no final da década de 1950, ele escreveu a seu amigo anti-comunista Sidney Hook: “Não se preocupe, não serei seduzido pelos russos e voltar pra casa alegando que eles atingiram o socialismo!” Ao que Hook respondeu prontamente: “Mas é exatamente isso que me preocupa – que você voltará dizendo que a URSS não é socialista!” O que preocupava seu interlocutor anti-comunista era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem completamente errado na construção de uma sociedade socialista, isso não invalida a ideia em si, só significa que não a implementamos adequadamente… Não detectamos a mesma ingenuidade nos fundamentalistas do livre-mercado de hoje?
Quando, durante um debate televisivo na França alguns anos atrás, Guy Sorman alegou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam de mãos dadas, não pude resistir fazer a óbvia provocação: “Mas e a China hoje?” Ao que ele rebateu imediatamente: “Na China não há capitalismo!” Para um apologeta fanático do capitalismo como Sorman, se um país não é democrático, isso simplesmente significa que ele não é verdadeiramente capitalista, mas pratica uma versão deturpada de capitalismo, da exata maneira que para um comunista democrático, o stalinismo simplesmente não era uma forma autêntica de comunismo. “Minha noiva nunca se atrasa para nenhum compromisso, porque assim que ela o fizer, deixará de ser minha noiva!” É assim que os apologetas do livre mercado hoje, em uma forma inaudita de apropriação ideológica, explicam a crise de 2008: não foi a falência do livre mercado que a causou, mas a excessiva regulação estatal, isto é, o fato de que nossa economia de mercado nunca foi uma verdadeira economia de mercado, que ainda estava nas garras de algum resquício do Welfare State… A lição dos Panama Papers é justamente que este não é o caso: a corrupção não é um desvio do sistema capitalista global, ela é parte de seu funcionamento básico.
A realidade que emerge dos Panama Papers é uma de divisão de classes, pura e simples. Eles demonstram como uma casta de ricos vive em um mundo separado em que regras diferentes se aplicam, em que o sistema legal e a autoridade policial são intensamente torcidos e não apenas protegem os ricos, mas estão prontos a sistematicamente moldar a lei para acomodá-los. A piada cruel em Ser ou não ser, de Lubitch, cai como uma luva aqui: quando questionado sobre os campos de concentração na Polônia ocupada, o oficial nazista encarregado, “Erhard campo-de-concentração”, rebate: “Nós apenas fazemos a concentração, são os poloneses que acampam.” E o mesmo não vale para a falência da Enron em janeiro de 2002, que pode ser interpretada como uma espécie de comentário irônico sobre a noção de sociedade de risco? Milhares de funcionários que perderam seus trabalhos e economias estavam certamente expostos a um risco, mas sem uma verdadeira escolha – o risco apareceu a eles como fé cega. Por outro lado, aqueles que efetivamente tinham um vislumbre sobre os riscos e uma possibilidade de intervir na situação (a alta gerência), minimizaram seus riscos ao venderem suas ações antes da falência ser declarada – então é verdade sim que vivemos em uma sociedade de escolhas arriscadas, só que há aqueles (a alta gerência de Wall Street) que escolhem, e aqueles (as pessoas comuns pagando suas hipotecas) que assumem os riscos…
Há já muitas reações da direita liberal aos Panama Papers que jogam a culpa nos excessos de nosso Welfare State (ou o que restou dele): afinal, como há tantos impostos, não é de surpreender que os proprietários tentem deslocar seus recursos financeiros para lugares com menos taxação, uma “planejamento tributário” que em última instância não chega a ser ilegal… Por mais ridícula que essa desculpa possa parecer (afinal, o que os Panama Papers revelam são transações que de fato ferem a lei), esse argumento tem algo de verdadeiro. Dois pontos que merecem ser destacados nesse raciocínio. Primeiro, a linha que separa as transações legais das ilegais está ficando cada vez mais esfumaçada, e muitas vezes se reduz a uma mera questão de interpretação. Em segundo lugar, os sujeitos que deslocaram seu dinheiro para contas offshore e paraísos fiscais não aparecem mais como monstros gananciosos, mas sim como meros indivíduos que simplesmente agem como sujeitos racionais na busca de salvaguardar suas posses. No capitalismo, não se pode jogar fora a água suja da especulação financeira e guardar o bebê saudável da verdadeira economia: a água suja é o próprio aporte vital do bebê. E não devemos ter medo de ir às últimas consequências aqui: o sistema legal capitalista global em si é, em sua dimensão mais fundamental, corrupção legalizada. A questão de onde começa o crime (quais operações financeiras são de fato ilegais ou não) não é portanto uma questão legal, mas uma questão eminentemente política – é uma questão de disputa de poder.
Então por que é que milhares de empresários e políticos fizeram aquilo que está documentado nos Panama Papers? A resposta é a mesma que a do velho chiste de mal gosto: por que é que os cachorros lambem suas bolas (e nós, homens comuns não)? Porque eles podem.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Do Jornal do Brasil
 
Jornal americano fala sobre a batalha da votação do impachment na Câmara
Em reportagem publicada nesta terça-feira (12), o The New York Times destaca a votação do relatório de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff na segunda-feira (11) e reforça: "Deve-se lembrar que Dilma é uma das raras figuras políticas no Brasil que não estão enfrentado acusações de enriquecimento pessoal ilícito."
A reportagem destaca que os ânimos estavam exaltados na sessão que, após longas considerações de cada parlamentar presente, terminou com 38 votos a favor do andamento do processo  e 27 contra o afastamento da presidente.
Segundo a reportagem, os partidários de Dilma devem agora lutar por mais votos antes da votação na Câmara, onde esperam evitar que dois terços dos 513 deputados votem pelo impeachment.
O jornal americano informa que a votação que ocorrerá neste fim de semana, no domingo (17), aponta para uma nova etapa volátil na crise política do Brasil. "Se a medida de impeachment for aprovada na Câmara, o processo seguirá para o Senado, que decidirá o futuro da presidente. Se o Senado opta por avançar, Dilma será suspenso e substituída pelo vice-presidente, Michel Temer."
O 'NYT' destaca que Dilma e seus principais assessores argumentam que o processo de impeachment é um golpe de Estado. "Incapazes de acusa-la por corrupção, seus adversários estão tentando impeachment por manipulação orçamental envolvendo o uso de recursos de bancos estatais para cobrir lacunas de orçamento. Deve-se lembrar que Dilma é uma das raras figuras políticas no Brasil que não estão enfrentado acusações de enriquecimento pessoal ilícito."
"A história não perdoará os atos de violência contra a democracia", disse José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União, em defesa de Dilma na segunda-feira (11), descrevendo as deliberações do painel de impeachment como " golpe de Estado de 2016."
O jornal acrescenta que durante a sessão, vazou para a imprensa uma gravação de 15 minutos do vice-presidente Michel Temer, com discurso triunfante, afirmando o impeachment como certo e apelando para um governo de "salvação nacional".

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Do Conexão Jornalismo

Chamada a participar de programa na Globo, nutricionista diz "não"

Da Redação
A onda de dizer "não" à TV Globo diante de convites para participar do jornalismo na emissora tem se repetido com frequência. A nutricionista Patrícia Jaime, professora do Departamento de Nutrição da USP, foi o último caso tornado público e pelas mesmas razões alegadas por especialistas anteriores: o engajamento da Globo no processo golpista que ameaça tirar do poder o governo democraticamente eleito de Dilma Rousseff. Patrícia, uma das mais renomadas profissionais do país, explicou seus motivos na sua página do Facebook.
O problema maior que os produtores da Globo estão enfrentando é que os convidados em geral pedem para que os convites sejam encaminhados via e-mail. A partir daí eles ficam à vontade para recusar e usá-lo como prova de que de fato ocorreu. Mas este não é o drama maior da emissora: como os melhores profissionais estão dizendo "Não" a Globo, a orientação é para que chamem entrevistado de segundo ou terceiro escalão.
Trata-se dos profissionais que em situação normal não seriam nem sequer chamados. Assim, comooportunidade de aparecer na mídia, tais profissionais não hesitam em aceitar. O problema é a qualidade do que é dito no ar...

Veja a manifestação de Patrícia Jaime.
Chegou a minha vez de dizer não à Rede Globo
Hoje recebi um convite para participar, mais uma vez, de um programa matinal da emissora para falar sobre alimentação, com o tema "SAL, AÇÚCAR E GORDURA".
Reproduzo a resposta que dei ao convite, sem aqui expor a pessoa da produção que estive em contato.

Olá XXXXX,
Agradeço o convite. Poderia falar com você, mas participar do programa não será possível. Tenho visto com preocupação a linha editorial que a Rede Globo vem adotando na cobertura do momento histórico que vivemos. No passado, a emissora já se colocou contra as conquistas democráticas do Brasil e me parece que a empresa segue no mesmo sentido.
Mesmo não sendo o tema em questão diretamente relacionado à agenda política, mas, por outro lado, em reconhecimento aos avanços recentes que tivemos em questões nutricionais no país, eu não me sentiria confortável com a colaboração neste momento.
Antes de ser pesquisadora em nutrição e saúde pública, sou uma cidadã comprometida com a defesa da democracia em meu pais.

Atenciosamente,
Patricia Constante Jaime Professora do Departamento de Nutrição ­Faculdade de Saúde Pública ­/ USP

domingo, 10 de abril de 2016

Da Carta Capital
 
O bestialógico galopa enquanto um criminoso decide o destino do Brasil. Mas há um problema mundial...
 
Mino Carta
O escândalo chamado Panama Paperscabe com encaixe perfeito entre os resultados da sujeição do mundo ao deus mercado que o papa Francisco mais propriamente definiria como demônio do dinheiro.
Antes de cogitarmos de uma reforma política brasileira, de resto, por ora tão improvável quanto duvidosa, seria altamente recomendável uma reforma do globo terráqueo. De sorte a reverter o processo destinado a enriquecer cada vez mais uns poucos para empobrecer e imbecilizar os demais. Aludo a bilhões de seres ditos humanos.
Um jurista italiano em recente visita ao Brasil, ex-integrante da força-tarefa daOperazione Mani Pulite, Gherardo Colombo, convidado com o transparente propósito de constatar convenientes similitudes entre aquela ação justiceira e a Lava Jato, cuidou de desencantar os anfitriões, de sorte a não merecer maior repercussão na mídia nativa, a do pensamento único a favor do golpe.
A tese central de Colombo, exposta no debate promovido para favorecer Sergio Moro e os promotores curitibanos, é a seguinte: em situações de corrupção desenfreada, a magistratura terá de agir para prender e incriminar quem quer que seja, mas não extirpará o mal se este for da cultura do país. O pecado só será remido pela educação dos graúdos e dos miúdos. Dura lição, que não se coaduna com as pretensões da Lava Jato.
A corrupção é global, como, por exemplo, os Panama Papers comprovam. Nem por isso Moro e sua operação deixam de ser representativos de um país a seu modo único. A Lava Jato presta-se a fornecer munição a uma tentativa de golpe, vale-se de uma polícia disposta a desservir ao Estado para favorecer a manobra em sintonia com a mídia compactamente envolvida no processo.
Atenta contra a lei impavidamente e tanto esquece a origem da corrupção e seus mais atilados praticantes, bem como liquida em um piscar de olhos a possibilidade de qualquerenvolvimento da Mossack.
Desponta a urgência de interrogar os botões: por que será que Moro e cia. enterraram o assunto? Respondem: talvez o peso de nomes graúdos detentores das offshore à margem do canal, nomes retumbantes, tenha aconselhado o súbito recuo, mesmo depois da prisão de cinco suspeitos da Mossack, logo postos em liberdade.
Uma pergunta chama outra: e por quais cargas-d’água as atividades do empresário Fernando Henrique Cardoso e do seu endiabrado herdeiro Paulo Henrique não mereceram eco da mídia nativa? Ora, ora, respondem os botões, FHC é ainda mais invulnerável do que Aquiles, o herói grego de calcanhar indefeso. Nem mesmo Páris, de excelente pontaria, conseguiria abater o ex-presidente sem pontos fracos.
A incerteza do momento precipita mais perguntas. Por que ressurge a proposta da renúncia da presidenta Dilma, formulada tempos atrás pelo acima citado FHC? A Folha de S.Pauloressuscita a ideia como portadora da bandeira a abrir o desfile olímpico. Marcha imponente, a convocar muitos dos titulares da casa-grande, seus aspirantes e fâmulos.
E por que Dilma haveria de renunciar? Nada empurra a tanto o vencedor de uma eleição, menos ainda a lei. Há quem diga: antecipemos as eleições, outubro próximo seria uma boa data. A presidenta reage com louvável ironia: pois então, renunciemos todos em bloco, governo, governadores e congressistas.
A quem aproveita a proposta? Panorama confuso, de névoa do Mar do Norte, na madrugada invernal. Em meio à cerração, aparecem desentendimentos na tripulação do barco golpista. Não vale a pena perder tempo em relação ao patético comportamento de Marina Silva, crente ferrenha das pesquisas, incapaz de perceber que a coisa pega somente nas cercanias do pleito.
Colombo
Este Colombo decepcionou os anfitriões nativos
Permito-me outros exemplos: eleições em outubro não comovem, por motivos diversos, Michel Temer e Aécio Neves. Encantam, porém, por razões insondáveis, Paulo Skaf, aquele que estimula imensa saudade de Antonio Ermírio de Moraes e Olavo Setubal, dois empresários que praticaram a política com outros méritos e válidos atributos. Tampouco está claro se Skaf é empresário.
Algo é certo, soletram os botões: a proposta da renúncia nasce de uma forte dúvida a respeito do desfecho da manobra golpista do impeachment. A tigrada deu para temer, de uns dias para cá, que o complô soçobre no fracasso final.
Retomada a normalidade democrática, e diante de uma crise iniciada no exterior que não tende a arrefecer, a possibilidade de antecipar eleições gerais poderia ser levada em conta, ao cabo de um amplo debate e de uma adequada emenda constitucional, operada pelos poderes previstos em lei.
Antecipação de um ano, para outubro de 2017, quem sabe. Não é por acaso, de todo modo, que a Folha assuma o papel de portador da proposta da renúncia, inequivocamente golpista nas circunstâncias. Diz um caro amigo que o jornalão da família Frias é o mais hipócrita da categoria.
Abriga textos que contradizem a linha do jornal, sem contar a pretensão do ombudsmanfaccioso, para alardear uma isenção desmentida na totalidade dos demais espaços. OEstadão é um vetusto fazendeiro que não consegue enxergar além da cancela das suas terras. O Globo é homem de negócios suspeitos, sem escrúpulos, entregue ao demônio do dinheiro.
Os jornalões, os revistões e os programões abrigam o bestialógico mais grandioso da história do País. No confronto, o Febeapá da Stanislaw Ponte Preta empalidece. O que se lê e se ouve, imediatamente repetido por uma fatia conspícua da sociedade, é algo que não tem similar mundo afora. Trata-se de um besteirol clangoroso que exibe o estágio cultural primitivo de uma nação carente de saúde mental.
Não falta quem escape ao desastre, mas o conjunto da obra é apavorante. Fôssemos diferentes, nos riríamos dos equívocos, dos mal-entendidos, das acusações pueris, e das pretensões descabidas, das ambições idem, dos exibicionismos provincianos, da pompa ridícula, da ostentação grosseira, da vulgaridade geral. O fenômeno apresenta, contudo, uma imponência tão avassaladora a ponto de provocar por parte de quem dispõe de bons olhos, vergonha e desalento.
Perguntam agora meus envergonhados botões: quem haverá, neste Brasil em apuros, capaz de entender que o impeachment não resolve a crise, pelo contrário, a complicaria? E quem se dá conta de que os Panama Papers desvendam o ninho do ovo da serpente da crise que, sem isentar o País, transcende a economia?
Há outra discrepância, ainda mais espantosa, a denunciar ausência de saúde mental, bem como política: enquanto se discute se Dilma cometeu um crime inexistente, decide os destinos do Brasil um notório criminoso chamado Eduardo Cunha

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Empresariado liderado por Skaf desperta do sono a luta de classes
por J. Carlos de Assis
A operação mais bem sucedida do capitalismo no século XX foi mascarar a exploração da força de trabalho mediante a aceitação progressiva dos chamados direitos sociais. Embora os comunistas ortodoxos nunca tenham aceito isso, o ímpeto revolucionário da classe trabalhadora esmaeceu-se diante de políticas concretas de bem-estar social. Esse processo correspondeu a conquistas políticas que pareciam definitivas, concretizadas em orçamentos públicos que, em teoria, faziam parte da mais valia social que retornava aos trabalhadores.
A reversão desse processo se deveu à revivescência do velho liberalismo, sob o nome de neoliberalismo, a partir das políticas de Ronald Reagan e Margareth Thatcher no início dos anos 80. O papel desses dois políticos foi fazer cair a máscara da exploração da força de trabalho pelo grande capital. O expediente para isso consistiu em atacar o gasto público social através do qual parte da mais valia subtraída ao trabalhador volta para ele sob a forma de benefícios sociais como saúde, educação, previdência e assistência social.
A teoria política da necessidade degradação dos serviços sociais foi desenvolvida inicialmente por Hayek sob o argumento de que tais direitos expressavam um aspecto do Estado totalitário. No princípio, não era levado a sério. Depois recebeu contribuição de Milton Friedman, e assim mesmo não pegou. A situação mudou com o fim da União Soviética: embora o regime comunista não fosse nada simpático à maioria das sociedades, a simples ameaça dele na Guerra Fria moderava o apetite de exploração de classe do lado de cá.
Agora voltamos ao começo do século XX, quando a exploração de classe era descarada e o sistema político era indiferente às necessidades sociais. Basta lembrar, a esse respeito, que em fins do século XIX o orçamento da Inglaterra, o país mais rico do mundo, não passava de 8% do PIB, a maior parte gasta em polícia e forças armadas. Nesses últimos anos após 2008, a crise na Europa se traduz em contração orçamentária para liquidação de direitos sociais, sobretudo na área do euro, com o objetivo de pagar pela especulação financeira desenfreada.
Esse preâmbulo não tem a ver exclusivamente com história, ou com os europeus. Os trabalhadores dos países desenvolvidos, que estão sendo saqueados, cedo ou tarde saberão reagir. Tenho em vista, ao contrário, a questão nacional. Pois grande parte do empresariado brasileiro, chefiado por essa figura patética de Paulo Skaf, decidiu reinaugurar, depois de um século, a luta de classes no Brasil. E o eixo dessa conspiração regressiva é a tentativa de impeachment contra Dilma Roussef, colocando ricos contra pobres numa escala inimaginável.
Querem uma tradução dessa luta política em termos marxistas? Vai lá, talvez isso ajude a levantar o ânimo do movimento trabalhista em torno de questões cruciais para seu bem estar. A mais valia é trabalho não pago à força de trabalho; o valor da força de trabalho é o valor da sua reprodução, governado por condições sociais e a lei de oferta e procura; o valor da mercadoria é o valor-trabalho nela incorporado. A mais valia, assim, é a margem entre o valor da mercadoria a ser realizado e o valor da força de trabalho.
Então, doutor Skaf, o que você pretende é impedir que parte da mais valia social – a diferença entre trabalho pago e trabalho não pago – volte, através do orçamento público, como benefícios a seu único gerador, o trabalhador.  Sua luta contra impostos e pelo impeachment são duas faces de uma mesma moeda, na medida em que, no fundo, seu objetivo é destruir direitos sociais (e a possibilidade de ampliá-los) e afastar um projeto de Governo que, com todas as limitações, fez uma efetiva opção pelos pobres.
Estou usando propositadamente uma linguagem marxista para lembrar ao empresariado, em especial o empresariado golpista, que o sonho do socialismo não morreu com a União Soviética, nem mesmo a União Soviética foi o sonho de todos os socialistas. Cuidado, portanto. Estão despertando a ira das massas. Há um elemento quantitativo em jogo: os capitalistas se concentram e são muito poucos; a classe trabalhadora são muitos. Pessoalmente gostaria de viver numa sociedade de bem-estar social, com um capitalismo domesticado a la Keynes. Skaf e os seus querem a liberdade sem limites do capital. Ganharão?
J. Carlos de Assis - Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ